UMA SOCIEDADE
EM TRANSFORMAÇÃO I
EM TRANSFORMAÇÃO I
As transformações por que tem
passado a sociedade brasileira vêm sendo registradas não apenas pelos historiadores, mas também pelos artistas populares através
do cordel e da música. Quem viveu as décadas de 20-40 do século passado sabe
como era diferente essa sociedade, quer nos seus aspectos econômicos,
quer na questão comportamental. Economicamente, houve uma indiscutível mudança
positiva com a distribuição da renda antes concentrada nas mãos do usineiro, do senhor de engenho, do industrial
de todos os portes e dos comerciantes de todas as categorias. Estes e
outros empresários constituíam a elite
social da época, e pouco se importavam com o fator educação; só os seus filhos
tinham acesso ao estudo. O restante era mantido na ignorância. Bem pouco
diferente dos dias de hoje, quando as velhas
elites políticas têm pouco interesse
numa educação transformadora das populações mais carentes. Manter o povo na
ignorância é uma forma de manipulá-lo, seduzindo-o com falsas promessas de melhoria de vida. A carência
social dessas populações mais pobres leva parte dos seus integrantes a trocarem
votos por cestas básicas e bens materiais como tijolo, telha, cimento e outros mais;
quando não vendem seu voto por quaisquer importância pecuniária de menor valor.
No Nordeste, nas décadas citadas,
principalmente nas pequenas cidades do interior, os cordelistas contavam em
versos divulgados por livretos chamados
folhetos vendidos nas feiras livres a vida das populações dos engenhos e
dos sítios da zona da mata e do Agreste. Davam ênfase às paixões dos jovens
e aos amores proibidos de mulheres
casadas que fugiam com seus amores clandestinos. Situação verdadeiramente
inversa ao que realmente acontecia nos engenhos e sítios desses rincões. As
testemunhas oculares desse período histórico de nossa gente descrevem um
ambiente diferente. As moças, quase todas analfabetas, trabalhavam na enxada
num ciclo familiar estruturado e de
costumes simples. Nas noites de lua brincavam no terreiro da casa grande do
engenho ou em frente a uma das casas dos sítios. Jogavam academia, faziam dança
de roda e improvisavam versos geralmente numa referência indireta a algum
pretendente. Namorar só no momento das danças, quando trocando de pares
seguravam a mão do paquera. Fora disso, era namoro autorizado, noivado e
casamento. As mulheres casadas, embora subjugadas pelos maridos numa sociedade
fortemente machista, se portavam de forma exemplar. A linguagem então usada era
a mais decente possível, diferente do que se constata nas casas, nas ruas, nas
escolas e nos locais de trabalho de hoje
No Sul, particularmente no rio, Ari
Barroso, produtor teatral, compositor e radialista famoso da década de
50-60 pintou com tintas berrantes a miséria das populações cariocas que
moravam nos morros. Transformou a miséria de uma gente sofrida num festival lírico que nada tem a ver com a
realidade daquelas pessoas. Se sua obra abriu discussão sobre como era difícil
morar nos morros do Rio, por outro lado num desserviço à Nação deu a entender
que aquele era um povo feliz. Em Chão de
estrelas, uma de suas mais belas
composições, fala de “Nosso teto de zinco furado enchia de estrelas nosso chão”;
e vai mais longe, quando diz que “Nossos trapos nos varais dependurados
pareciam um eterno festiva ... a mostrar que nos morros mal vestidos é sempre feriado nacionall”, para arrematar
que: “A felicidade do caboclo era um barraco, uma mulata e um violão”. Um outro compositor, mais realista, narra na sua música: "Lata d´água na cabeça/ lá vai Maria/ sobe o morro e não se cansa/ leva ao colo uma criança/ lá vai Maria ..."Roberto Silva, cantor e compositor dos morros cariocas nas décadas de 30-40 , em dois sambas de raiz, define o ambiente social e o clima ético e psicológico que envolvia a pobre gente dos barracos de lona dos morros cariocas. Numa composição gravada no começo da década de 40 descreve o homem e a mulher típicos dos morros; o homem sempre retratado na pessoa do malandro e a mulher, eterna empregada doméstica que divide seu tempo entre os folguedos noturnos do morro e o trabalho de dia nas casas das famílias de poder aquisitivo do asfalto. Vejamos o que diz: “Quase todo crioulo do morro é sambista/quase toda mulata bonita é artista/desempenha diversos papéis sozinha/ à noite ela samba no morro/ de dia ela enfrenta a cozinha/trata bem o senhor branco/ bem melhor a sinhazinha/ de noite traz um jogo de marmita/ com arroz de forno e galinha/ e o crioulo espera sempre/ lá no morro a rainha/ ela não dá importância ao tititi da candinha”. Noutro samba intitulado Maria da Penha, o cantor descreve uma cena que seria inusitada nos dias de hoje, realçando os costumes comportamentais da época. Vejamos: “Hoje não tem ensaio na escola de samba/o morro tá triste e o pandeiro calado / Maria da Penha, a porta-bandeira/ ateou fogo às vestes por causa do namorado / o seu desespero foi por causa de um véu / a pobre infeliz teve vergonha de ser mãe solteira”.