NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

sábado, 31 de março de 2012



                 UMA SOCIEDADE
           EM TRANSFORMAÇÃO  I

As transformações por que tem passado a sociedade brasileira vêm sendo registradas  não apenas pelos historiadores,  mas também pelos artistas populares através do cordel e da música. Quem viveu as décadas de 20-40 do século passado  sabe  como era diferente essa sociedade, quer nos seus aspectos econômicos, quer na questão comportamental. Economicamente, houve uma indiscutível mudança positiva com a distribuição da renda antes concentrada nas mãos do  usineiro, do senhor de engenho, do industrial de todos os portes e dos comerciantes de todas as categorias. Estes e outros  empresários constituíam a elite social da época, e pouco se importavam com o fator educação; só os seus filhos tinham acesso ao estudo. O restante era mantido na ignorância. Bem pouco diferente  dos dias de hoje, quando as velhas elites  políticas têm pouco interesse numa educação transformadora das populações mais carentes. Manter o povo na ignorância é uma forma de manipulá-lo, seduzindo-o com falsas  promessas de melhoria de vida. A carência social dessas populações mais pobres leva parte dos seus integrantes a trocarem votos por cestas básicas e bens materiais  como tijolo, telha, cimento e outros mais; quando não vendem seu voto por quaisquer importância pecuniária de menor valor.
No Nordeste, nas décadas citadas, principalmente nas pequenas cidades do interior, os cordelistas contavam em versos divulgados por livretos chamados  folhetos vendidos nas feiras livres a vida das populações dos engenhos e dos sítios da zona da mata e do Agreste. Davam ênfase às paixões dos jovens e  aos amores proibidos de mulheres casadas que fugiam com seus amores clandestinos. Situação verdadeiramente inversa ao que realmente acontecia nos engenhos e sítios desses rincões. As testemunhas oculares desse período histórico de nossa gente descrevem um ambiente diferente. As moças, quase todas analfabetas, trabalhavam na enxada num ciclo  familiar estruturado e de costumes simples. Nas noites de lua brincavam no terreiro da casa grande do engenho ou em frente a uma das casas dos sítios. Jogavam academia, faziam dança de roda e improvisavam versos geralmente numa referência indireta a algum pretendente. Namorar só no momento das danças, quando trocando de pares seguravam a mão do paquera. Fora disso, era namoro autorizado, noivado e casamento. As mulheres casadas, embora subjugadas pelos maridos numa sociedade fortemente machista, se portavam de forma exemplar. A linguagem então usada era a mais decente possível, diferente do que se constata nas casas, nas ruas, nas escolas e nos locais de trabalho de hoje
No Sul, particularmente no rio, Ari Barroso, produtor teatral, compositor e radialista famoso da década de 50-60  pintou com tintas berrantes a miséria das populações cariocas que moravam nos morros. Transformou a miséria de uma gente sofrida  num festival lírico que nada tem a ver com a realidade daquelas pessoas. Se sua obra abriu discussão sobre como era difícil morar nos morros do Rio, por outro lado num desserviço à Nação deu a entender que aquele era um povo feliz. Em Chão de estrelas,  uma de suas mais belas composições, fala de “Nosso teto de zinco furado enchia de estrelas nosso chão”; e vai mais longe, quando diz que “Nossos trapos nos varais dependurados pareciam um eterno festiva ... a mostrar que nos morros mal vestidos  é  sempre feriado nacionall”, para arrematar que: “A felicidade do caboclo era um barraco, uma mulata e um violão”. Um outro compositor, mais realista, narra na sua música: "Lata d´água na cabeça/ lá vai Maria/ sobe o morro e não se cansa/ leva ao colo uma criança/ lá vai Maria ..."

Roberto Silva, cantor e compositor dos morros cariocas nas décadas de 30-40 , em dois sambas de raiz, define o ambiente social e o clima ético e psicológico que envolvia a pobre gente dos barracos de lona dos morros cariocas. Numa composição  gravada no começo da década de 40 descreve o homem e a mulher típicos dos morros; o homem sempre retratado na pessoa do malandro e a mulher, eterna empregada doméstica que divide seu tempo entre os folguedos noturnos do morro e o trabalho de dia nas casas das famílias de poder aquisitivo do asfalto. Vejamos o que diz: “Quase todo crioulo do morro é sambista/quase toda mulata bonita é artista/desempenha diversos papéis sozinha/ à noite ela samba no morro/ de dia ela enfrenta a cozinha/trata bem o senhor branco/ bem melhor a sinhazinha/ de noite traz um jogo de marmita/ com arroz de forno e galinha/ e o crioulo espera sempre/ lá no morro a rainha/ ela não dá importância ao tititi da candinha”. Noutro samba intitulado  Maria da Penha, o cantor descreve uma cena que seria inusitada nos dias de hoje, realçando os costumes comportamentais da época. Vejamos: “Hoje não tem ensaio na escola de samba/o morro tá triste e o pandeiro calado / Maria da Penha, a porta-bandeira/ ateou fogo às vestes por causa do namorado / o seu desespero foi por causa de um véu / a pobre infeliz teve vergonha de ser mãe solteira”.


quarta-feira, 28 de março de 2012


             AQUECIMENTO DA TERRA
O PLANETA AQUECE NUMA PROGRESSÃO CONSTANTE

A temperatura do planeta aumenta numa proporção constante. Os índices de CO2 medidos  e acompanhados  pelo Instituto de Meteorologia da Espanha  indicam tendência de aquecimento continuado. Cada medição revela o incremento da temperatura em torno de 0,9º comparado com igual período do ano anterior. Esses dados são preocupantes. Ventos fortes são empurrados para o norte do Planeta, levando o ártico a se adensar em algumas partes. Isso implica em aumento de peso e quebra das geleiras. A quantidade de água doce que é liberada aumenta o volume dos oceanos. E esse aumento do volume dos oceanos pode possibilitar  o deslocamento de grandes icebergs, e pode desestabilizar  a estrutura do ártico. O Continente Ártico é na verdade uma extensa  camada de gelo flutuando sobre águas geladas. Não tem base em terra nenhuma. A redução dessa camada de gelo  tem contribuído para o aumento da temperatura da Terra, e isso, como já foi dito, tem uma tendência de crescimento continuado.

Como barrar esse aumento da temperatura da Terra? Não há como; é um processo natural que cedo ou tarde teria maior ou menor impacto sobre o clima geral, já que o sistema de ar circulante  pode ser influenciado por vários fatores. Entretanto, a ação do homem vem contribuindo para aumenta a temperatura da Terra. Quase todas as atividades econômicas do Planeta liberam CO2, o gás do efeito estufa. Os cidadãos não querem abrir mão do seu conforto, nem os empresários dos seus lucros. Quando você viaja de carro ou avião o escape do veículo ou a turbina da aeronave liberam CO2. Quando você usa a geladeira,  o aquecedor de água, o sugador de gordura, as chapinhas para alisar os cabelos, o “inocente” isqueiro e mais uma parafernália de aparelhos elétricos está mandando gases do efeito estufa para a atmosfera. Só? A carne que você consome também é responsável por essa mudança climática que caminha para uma catástrofe. Os ruminantes que nos fornecem as carnes que nos alimentam contribuem enormemente para formação dos gases do efeito estufa. Quando remastigam o capim que os alimenta nesse processo chamado ruminação   os animais arrotam e esse arroto libera para a atmosfera  enormes quantidades de gases do efeito estufa. Você sabe quantas cabeças de gado existem nas fazendas do mundo inteiro. E não é só o boi; são todos os ruminantes, gado de pequeno porte que participam desse processo.

Você concordaria em abrir mão daquele papel higiênico suave do seu banheiro? Dos tecidos de suas roupas de marca? E de tantas bugigangas que fazem de você aquela pessoa elegante? Claro que não! Pois ao serem fabricados  todos esses produtos saem de máquinas que produzem CO2. Assim, o homem participa ativamente desse processo do aquecimento global. Civilização inconsequente; mas não conhecemos outra.

domingo, 25 de março de 2012


“O brasileiro é o único povo que ri da própria desgraça”

                                                                     - Chico Anísio

 Morreu aos oitenta anos Chico Anísio. Humorista, escritor, ator, compositor, radialista, diretor, artista plástico, o “homem das mil faces” deixa uma lacuna difícil de ser preenchida. A perda é irreparável para a cultura do povo  brasileiro. Jô Soares, seu velho companheiro em programas humorísticos  imemoráveis na televisão, foi muito feliz quando afirmou que Chico Anísio “desmente um pouco” a tese segunda a qual ninguém é insubstituível. Com seus mais de duzentos personagens, Chico Anísio foi o maior artista brasileiro de todos os tempos. A entonação de voz de cada um de seus personagens  é ímpar. E cada personagem  tem um bodão próprio, o que valorizava  ainda mais a capacidade de criar e representar do famoso humorista.  

Nascido em 12 de abril de 1931 no município de Mamanguape, Ceará, berço de muitos humoristas e outros artistas versáteis, Francisco  Anísio de Oliveira Filho  atuou no rádio e nos palcos pernambucanos. Cada apresentação do mestre do riso era um espetáculo único, com sua marca pessoal. Na sua era de ouro na televisão Globo criou os personagens que mexiam com a realidade da sociedade brasileira; retratou o caipira; o político corrupto na figura de Justo Veríssimo;  o malandro; a dupla de cantores baianos; o jogador de futebol sem noção; o sertanejo contador de histórias inverossímeis; o gay; a velha insolente que fustigava o presidente da República e tantos outros personagens que se identificavam com os vários estratos sociais do povo brasileiro. Homem rico, situado na zona da classe socialmente mais privilegiada da nossa sociedade, Chico Anísio, mais do que qualquer outra pessoa, viveu diante das câmeras  os tipos populares encontrados nas diversas regiões do País. Fazendo-nos rir, Chico Anísio na verdade nos ensinou a entender nossa realidade e desdenhar e  superar os percalços de um povo que ainda constrói sua identidade nacional.

sexta-feira, 23 de março de 2012


              O  TERRORISMO É SISTÊMICO 

Antes endêmico de algumas regiões, o terrorismo se espalhou por todos os continentes. Tornou-se uma grandeza sistêmica. Mas sua maior incidência ocorre exatamente nas áreas onde estão situados os maiores conglomerados econômicos do mundo. Isso tem uma explicação lógica: concentração de riqueza significa maior poder de opressão. Os recentes exemplos do jovem que assassinou sete ou oito pessoas na França antes de ser executado pelas forças de segurança e o alerta da Inglaterra para a possibilidades  de ações terroristas em seu território mostram que há uma relação direta de causa e efeito. Tropas desses países europeus oprimem os povos do Afeganistão e de outras nações da Ásia e África do Norte. Nicolas Sarcozy e David Cameron sabem dos perigos a que  seus países estão expostos. E ambos precisam demonstrar força política para se manterem no poder. As eleições gerais da França estão às portas, e Sarcozy precisa demonstrar competência de gestor para convencer os eleitores a votarem nele. E nessa peleja não pode titubear. Então, a política internacional  e a diplomacia francesas se esforçam em pressionar cada vez mais os seus potenciais adversários; justamente, os países das áreas produtoras de petróleo. Como não podia deixar de ser, a pressão traz a consequente reação. A situação de Cameron não é diferente.

Os norte-americanos vivem permanentemente em vigília; a segurança dos Estados Unidos é mais vigorosa, mais opressora. E por isso, aquele país é alvo predileto dos ativistas islâmicos ligados aos braços armados das suas várias facções. A guerra do Iraque, que nunca acabou, é um divisor de águas, isto é, amacia a fúria dos grupos xiitas e sunitas mais interessados em medir forças entre si e marcar território. Mas ninguém se engane. Toda essa demanda  iraquiana que diariamente abastece com notícias de atos terroristas os noticiários da televisão é um movimento orquestrado por interesses capitalistas, que se aproveitam da rivalidade religiosa das facções daquele País e da desordem  geral no Afeganistão para resguardar sua hegemonia militar e manter abertas as vias de escoamento do petróleo ali produzido. Esse é um panorama visível em todos os continentes, dependendo da capacidade econômica e militar de cada grupo de nações nesses continentes. É um processo sistêmico impossível de ser devidamente avaliado.

quinta-feira, 22 de março de 2012


            ÁGUA - FONTE DA VIDA

70% da estrutura de todos os seres vivos são compostos de água. Se fosse possível espremer a massa física dos animais e dos vegetais de todas as espécies existentes sobre o planeta o líquido libertado dessa prensa faria subir o nível dos mares. Imaginem se as geleiras todas derretessem de uma só vez e a água acumulada em vapor na atmosfera caisse sobre a superfície, que estrago não seria causado! Um dilúvio de proporções gigantescas destruiria as cidades litorâneas ao nível do mar. É impossível dimensionar a quantidade de vegetais e animais existentes no Planeta; nem sabemos quantas espécies vegetais existem na floresta amazônica e em outras florestas da Europa,  da África e da Ásia. Muito menos, quantos e quais os animais que habitam esses ecossistemas. Sabemos apenas da constituição químico-física  média dos seres vivos. Somos todos formados de água, esse líquido precioso que cobre 70% da superfície da terra, em forma de oceanos, mares, rios, lagos, geleiras, vapor  e mananciais  subterrâneos. 70% parece um número cabalístico, mas essa constatação é um dado cientificamente  demonstrado.

Enganamo-nos, porém, quando imaginamos que esse colossal volume de água é inesgotável. A quantidade talvez seja uma constante extremamente variável numa projeção razoável de tempo. Mas no futuro a qualidade da água ainda remanescente daqui a algumas décadas sobre a terra exige um convite à reflexão já agora. Pouco mais de 25% da água existente em todos os continentes  é potável. O Brasil, maior reservatório de água doce do mundo, possui apenas 12% de água potável. O solo amazônico, por onde corre os veios da maior bacia aquática do Planeta, pode não oferecer água subterrânea suficiente para abastecer as populações da região norte  em poucas décadas. E a água potável usada para fins domésticos, agropecuários e industriais  se perde para sempre. Assim, poderemos ficar sem água suficiente para saciar a sede de uma população já de sete bilhões de pessoas, e que cresce cada vez mais. E a agricultura, a economia enfim? Dependem diretamente de água potável.

Nesse Dia Mundial da àgua todos nós devemos nos conscientizar da necessidade de preservar as fontes, os rios e os lagos.  A água é abundante, mas se não for cuidada se tornará imprestável para nossa sobrevivência. Nascida naquele córrego, naquela serra ou proveniente daquela geleira, a água carrega em si ou transporta todos os nutrientes que fazem existir matas, florestas, animais. É o líquido sagrado, fonte da vida.

domingo, 18 de março de 2012


    

                   RECIFE DOS MEUS SONHOS

                                           Emílio J. Moura

                                           (emiliojmoura@hotmail.com)

             

O Recife da minha infância ainda não tinha aeroporto nem BRs. Nem tinha esses gaiolões de concreto e vidros onde hoje a classe média se protege da violência a campear lá fora. Os hidroaviões desciam nas águas mansas da bacia do Pina, e taxiavam deslizando até ao cais de Santa Rita, onde ficava a agência da Panair. Aí ocorriam os embarques e desembarques de passageiros. O transporte marítimo prevalecia. Cargas vindas da parte sul do Estado com destino à parte norte passavam pela rua imperial, então único acesso nessa direção. Recife era uma cidade acolhedora, a um só tempo mística e mítica. Encantava por suas belezas naturais, pela singeleza de sua gente e por seus contrastes. O alagado de São José, com seu manguezal em cujas bordas casebres acobertavam as camadas mais pobres da cidade, e impedia o crescimento da urbe. Quando a maré alta chegava, as águas causavam estragos à linha do trem e salpicavam os fundos das casas da rua imperial. Os habitantes dos casebres não conseguiam chegar às suas casas, porque as águas tinham invadido tudo. Quando do aterro do grande alagado, a dragagem retirou milhares de toneladas de areia do braço morto do Capibaribe. E destruiu um ecossistema marinho onde se multiplicavam moluscos e crustáceos e os peixes se reproduziam. Os mocambos já se avolumavam nos bairros centrais, nos córregos e encostas dos morros da cidade.

          Recife do Chupa e dos depósitos de lixo no bairro de São José, cuja fumaça produzida pela queima do entulho incomodava os habitantes da rua imperial. Recife do portuga, seu Manoel – “o pai do Chupa” -, pobre homem abandonado por seus patrícios e que trazia os dedos cheios de anéis garimpados ao lixo, várias vezes revirado e de onde recolhia até a comida que o sustentava; criatura estranha, de roupas sujas e fétidas, com calças remendadas, que não desprezava um paletó nem um chapéu; que carregava num saco às costas todos os seus bens e pertences: tenda feita com sobras de lona por ele mesmo costuradas, pratos, canecos, facas, colheres, panelas e caçarolas. Tudo tirado do lixo. Que não tinha o hábito de tomar banho, e o grude incrustado na pele largava aos pedaços.

         Recife dos trens urbanos e interurbanos. Jaboatão, Cabo, Maceió. As locomotivas fumacentas, barulhentas e vagarosas, em estrada de ferro de bitola estreita, arrastando vagões de assentos duros transportando muitos passageiros. A Estação Central, marco arquitetônico de uma época, era uma referência no nordeste. O transporte de massas concentrado no trem, como convém a uma cidade que se presa. Mas faltava muito para ser um serviço de excelência. Recife dos bondes, de luxo ou populares - estes com reboques - que interligavam quase todos os pontos da cidade. Costumava viajar aos domingos na linha Pedro II, e descia em frente do hospital para assistir aos jogos do time do Colônia no campo do Boa Idéia, numa ampla área de sítios hoje ocupada pelo bairro de classe alta da Ilha do Leite. A quebra do sistema de bondes complicou a vida da Capital. A Pernambuco Autoviária Ltda. e a João Tude de Melo (Progresso), iniciavam o serviço rodoviário de passageiros com veículos modernos contando com bus-moças e equipados com serviço de rádio de comunicação. A concorrência inviabilizou essas empresas. Outras empresas surgiram. Esse serviço logo se degenerou, e cedo os carros luxuosos das duas primeiras concessionárias foram substituídos por ônibus apertados e imundos. Automóveis era uma raridade nas ruas da cidade.

       Recife, outrora cidade-mãe acolhedora, limpa e pacífica. Recife da Rua de Jangada, da Gameleira, do Bode, do areal (hoje Brasília Teimosa), de Fernandinho, Engenhoca e Coque. Dos córregos de Casa Amarela, Água Fria e outros bairros. Dos bairros nobres do Espinheiro, Graças, Aflitos, Torre-Madalena e outros. E dos arrabaldes bem estruturados. De ruas arborizadas por oitizeiros e acácias. As casas parede-meia onde à noite os moradores instalavam cadeiras nas calçadas e conversavam como se fosse uma família só. Das meninas-moças jogando academia e brincando de dança de roda nas largas calçadas em frente de suas casas. Lembro quando, num intervalo de jogo no Chupa, bati na porta de uma casa da rua imperial e pedi água. A distinta velhinha apareceu e me viu sem camisa, descalço e suado. “Coitadinho, ele tem fome!”, disse com olhar piedoso. Enquanto eu tomava a água servida pela empregada, a bondosa anciã me trazia um prato com biscoitos, doce e um copo de ponche. Ela queria que eu descansasse um pouco mais, mas eu tinha pressa em partir. Voltar ao jogo. Hoje, crianças abandonadas perambulam esmolambadas pelas ruas da cidade, cheirando cola. E há autoridades e instituições a afirmarem que criança tem o direito de estar onde quiser e fazer o que quiser; idosos sofrem nos transportes mal cuidados e nas filas dos hospitais e dos bancos.

     Recife, menina pudica que se tornou mulher escrachada; perdeste a virgindade e te tornaste prostituta. E qual mãe desalmada, abandonas tuas crianças à própria sorte. Esqueces que direito de criança é estar na escola, de boa qualidade e em tempo integral. Ignoras que velhinhos necessitam de aconchego familiar, alimentação balanceada, transporte público de qualidade e de fácil acesso; de lazer e assistência médica. Merecem respeito! Pelo muito que fizeram na construção dessa “cidade cruel” que hoje os sataniza. Recife do porto fervilhando de trabalhadores carregando os sacos do açúcar que fazia tua riqueza de terceira cidade do Brasil. Recife de Nascimento Grande, Cícero da Gameleira, Otacílio da Rua de Jangada e tantos outros “brabos” que não espreitavam o cidadão na calada da noite; enfrentavam seus adversários de peito aberto e sob a luz do sol. Avenida Saturnino de Brito (hoje resta um pedaço), berço da elite da Cabanga e da zona sul da cidade, por onde os bondes passavam antes de atravessar os setecentos metros da velha ponte de ferro. Dos manguezais do Pina e de Boa Viagem, aterrados nos anos quarenta e onde hoje reside a elite da cidade; dos morros de Casa Amarela e Água Fria,  quando os baixo-falantes (toscas máquinas receptoras com um imã e um auto-falante feito de cartolina, e que necessitavam de antenas quilométricas para funcionar) tocavam músicas populares através das ondas sonoras da PRA-8, então única emissora de rádio do estado. Recife dos sambas e das canções de Roberto Silva, Carlos Galhardo, Dalva de Oliveira, Orlando Silva e Francisco Alves, cantadas em meio à chiadeira dos pesados discos de dois lados. Recife, de Banhistas do Pina, Batutas de São José, Lira da Noite, Madeira do Rosarinho; dos Clubes de Alegorias os Quatro Diabos e Anjos Rebeldes; de Pão-Duro, Pão da Tarde, Prato Misterioso, Rebeldes Imperial e de tantos outros clubes, troças e blocos; dos caboclinhos; de mateus e catarinas; dos maracatus; de dona Santa. De pregoeiros e vendedores excêntricos (“chá preto e pente”; “menooooooor”). Recife, de Nelson Ferreira, Pádua Walfrido, Capiba e tantos outros músicos cujos nomes a cidade sequer lembra que existiram.

              Recife antiga, de gente simples, população sem escola, sem emprego e sem renda certa, mas, assim mesmo, feliz. Quando a gente andava a pé pelo prazer de fazê-lo. Diferente de hoje, quando se anda a pé por falta de condições para pagar o transporte. Recife das histórias de assombrações; do lobisomem, do papafigo, do zamurim, da porca preta com seus cem porquinhos, da mula sem cabeça e de tantas outras excentricidades da cultura de um povo ainda em processo de formação. Recife das visitas do Zepelin, pairando sobre a cúpula do prédio do Diário de Pernambuco; do matadouro da Cabanga, cujo toque de búzio, tarde da noite, anunciava aos mais pobres que as carnes não vendidas podiam ser retiradas do balcão; de graça; Recife dos lamaçais perto do matadouro, onde ninguém se atrevia penetrar e carcaças de cabeças bovinas exibindo grandes chifres eram vistas na superfície escura quando a maré baixava. E nesse atoleiro uma criança caiu e foi salva pelos bombeiros somente quando sua cabeça já estava preste a afundar na lama. Recife dos incêndios que destruíram a Rua de Jangada. Recife dos tempos da segunda grande guerra, quando a cidade vivia às escuras temendo um bombardeio aéreo nazista à noite. Recife moderna, de povo sem trabalho, sem transporte condigno, sem saúde e sem segurança, por isso mesma com medo; de bispo-santo, feito Dom Helder Câmara. Apesar de toda essa crônica de sofrimento e horrores, Recife, tua história visita meus sonhos e ainda me apaixona; tuas pontes e teus rios, teus contrastes e teu povo exercem sobre mim indescritível fascínio.
Ó, Recife ingrata, se algo de mística e de mítica sobrou de ti, devolve-me à minha infância!

                                                                                                       Crônica de 10.03.1970.

                                                                                                    



 

                                                                              

                                                                                                    

                                                                                                                                                          

                                                                                                              





                                               


sexta-feira, 16 de março de 2012

DIVAGAÇÕES DE UMA NOITE INSONE

O que é filosofia? É tema para sábios. Criada pelos gregos em tempos bem antigos, a filosofia  não tem definição. Se for definida, se esgotará. Filosofar talvez seja perscrutar as profundezas da alma humana. Mas o filósofo, como ser humano, é limitado. As ideias é que se alargam bem além do horizonte visual ou sonhado pelo homem. As ideias deixam de ser obra de um homem ou de um grupo para se transformarem numa válvula impulsora da inteligência cósmica. Inteligência cósmica? O homem – mero ser finito - tem o poder de penetrar  no infindável  labirinto do Universo?  Afinal, que é Universo? Como dimensioná-lo para apreciá-lo em toda sua grandeza?  O que se pode dizer é que o Universo não tem fim. Para os astrônomos Universo é a parte do cosmo conhecida através das lentes do telescópio. São bilhões de galáxias compostas por milhares de bilhões de estrelas em torno das quais giram corpos chamados planetas.  Para os espiritualistas, o Universo é um conjunto de sistemas hierárquicos  onde habitam os espíritos. Para os cientistas, o Universo termina onde finda a capacidade de visualizar qualquer coisa.  Para os filósofos antigos, o Universo se restringia a pequenas divagações. Mas a filosofia dos grandes visionários da Humanidade enxerga até onde as lentes potentes  dos telescópios  não chegam. Os indianos viam bem mais longe. O livro dos Vedas é complexo, mas com paciência se descobre nele a plenitude sem fim do Universo.

A inteligência humana é capaz de perscrutar o que os olhos e os ouvidos não alcançam. O homem é o único ser vivo que raciocina. E foi raciocinando que ele descobriu a fórmula de dimensionar o espaço, medir o tempo e dominar as outras espécies vivas. A matemática é fruto do pensamento dos filósofos. E a matemática é a base de todo conhecimento racional. Mas a racionalidade humana muitas vezes esbarra em seus próprios conflitos. É pensando que o homem se descobre que existe. Mas suas divagações sobre a existência podem  torná-lo um ser  divorciado da realidade. Talvez  o divagador  tenha sua própria noção de realidade que escapa à nossa vã concepção. Muitas vezes o ser humano se descobre animal, que realmente é. E busca dentro dessa lógica a justificativa de suas  divagações. Pode cair na própria armadilha, e misturar instinto e inteligência.

Eis ai uma caso interessante. Até que ponto a inteligência está totalmente escoimadas dos impulsos do instinto? Será o instinto uma forma primária de inteligência? Em outras palavras: será a inteligência uma forma evoluída do instinto? Custa crer que as manifestações mais puras da inteligência humana  possam estar contaminadas  por  pruridos instintivos. E filósofos e pensadores passam a largo dessa questão. Pensar  a personalidade humana –para não dizer a alma humana, é como mergulhar nas profundezas do Universo. A parte visível do Universo tem galáxias, estrelas, planetas, cometas, meteoros. Quando essas grandezas não podem mais ser visualizadas, se diz que o Universo acabou. Mas além desses corpos celestes tem bilhões, trilhões (pobre Matemática!) de espaços escuros cujas fronteiras nunca serão encontradas, porque não existem. E se depois dessa escuridão, a distâncias impossíveis de serem equacionadas no momento, vierem novos sistemas solares que os telescópios não alcançam! O cérebro humano é igual. Um número enorme de neurônios dos quais  só um percentual ínfimo é utilizado e ramais nervosos que levam e trazem impulsos ao conjunto do corpo humano. Um microuniverso ambulante, contado aos bilhões.



   SÍRIA – UMA HISTÓRIA PARA CONTAR

O governo da Síria vem desafiando as leis internacionais e o primado da Organização das Nações Unidas (ONU). Ocorre ali um expurgo de ideias contrárias aos interesses de Bashar al-Assad. É a prepotência e a intolerância caminhando jutas. Em pouco tempo mais de oito mil pessoas teriam sido assassinadas pelo ditador Sírio. As cidades da periferia viram escombros sob o bombardeio dos tanques de al-Assad. As informações chegadas  da capital síria são algo ambíguas, para não dizer contraditórias. Quando os despachos são provenientes da agência oficial síria há aquela dúvida em face do massacre  de civis – homens, mulheres e crianças -mostrado diariamente nos noticiários da televisão.  Quando as notícias provêm de fontes “alternativas”, as redes sociais, por exemplo, não há como confirmar a origem e a exatidão das mesmas. A internet é uma terra sem lei onde as pessoas dizem o que querem muitas vezes – ou quase sempre, sem qualquer compromisso com a verdade. Mas será que al-Assad está sozinho nessa empreitada?

Na verdade, o que acontece na Síria é um capítulo a mais dessa onda de insatisfação que varre o Planeta. E muitos líderes de potências ocidentais se aproveitam desse momento perigoso para a paz mundial e manobram em nome dos interesses dessas potências. Al Assad desfila no cenário internacional como quem tem costas largas. E tem! Se não fosse assim as resoluções das Nações Unidas já teriam sido impostas pelos navios, canhões  e foguetes da OTAN. As declarações de líderes ocidentais condenando o massacre sírio têm sido brandas demais para tanta selvageria praticada por um ditador da região mais explosiva do mundo. Aquilo ali envolve interesses econômicos, políticos e militares. Ter aliados na região é de vital importância para as potências ocidentais capitaneadas pelos Estados Unidos que precisam do rico petróleo produzido na área e de meios de fazerem o óleo chegar aos grandes centros consumidores do Ocidente. Israel é a principal cabeça de ponte ocidental naquela região. O Paquistão ainda está sob controle de grupos pró-ocidental. E os palestinos,  divididos e controlados pela política invasiva de Israel, são impotentes para se constituírem numa ameaça real aos interesses norte-americanos  e ocidentais no Oriente Médio.

Dificilmente Bashar al-Assad terá o mesmo destino de Sadan Hussein e do coronel Kadafi. Estes eram aliados dos Estados Unidos e de repente se transformaram em pedras no caminho das potências ocidentais. E tombaram sob o fogo das bombas e dos foguetes da OTAN. A Síria é uma história que ainda será contada em versão mede in USA. Os capítulos que estão sendo escritos serão modificados, e só a posteridade distante contará a verdadeira história do que acontece na Síria de hoje.

terça-feira, 13 de março de 2012


         TEIXEIRA RENUNCIA À CBF
                BOM QUE SE FICA ALERTA QUANTO ÀS MANINAÇÕES DO CARTOLA
Aparentemente, está tudo bem. Ricardo Teixeira renunciou à presidência da Confederação Brasileira de Futebol e à Comissão Organizadora da Copa 2014. Só aparentemente. Na prática, Teixeira continuará mandando na CBF e na Cop14. E José Maria Marin ( quem não lembra dessa figura!) continuará sendo o nº 2 na cúpula diretora do futebol brasileiro. Sai Teixeira, mas fica lá a estrutura corrupta que ele montou na CBF. A filha de João Havelange continuará mandando e desmandando na organização da Copa do Mundo de 2014. E nas federações estaduais, continuarão os mesmos cartolas que têm protagonizado cenas deprimentes que agridem o senso comum.

Os brasileiros esperam uma Copa de Futebol que fique na história. E deixe dividendo a serem distribuídos com justiça social, pois, apesar de ser um evento privado, a maior parte do dinheiro para construir estádios, melhorar aeroportos e a mobilidade urbana sairá do bolso dos contribuintes. Mas não basta que o povo espere; é necessário que ele aja, fiscalizando as obras e o destino dado ao dinheiro nelas empregado. Se não houver uma ação forte nesse sentido ficaremos com um pesado ônus por não termos sabido fiscalizar as ações de picaretas trasvestidos de dirigentes do  futebol, bem como de políticos que se aproveitam dessas situações para engordarem suas contas.

Quanto a Ricardo Teixeira, e sua trupe corrupta, que seja defenestrado de fato da CBF e prossiga com seu projeto pessoal de ir morar no estrangeiro, onde pretende ficar a salvo das investigações que buscarão apurar as ações corruptas, dele e do seu sogro João Havelange, lá na sede da FIFA na Europa.


sábado, 10 de março de 2012


      ECONOMIA, PIB E RIQUEZA NACIONAL



O Brasil  superou a Grã-Bretanha,  se  consolidou  como a 6ª economia do mundo. Ainda este ano, deve ultrapassar a França e ocupar o 5º lugar no ranking econômico mundial.  Nessa caminha, deixará o Canadá para trás e em poucos anos será a 4ª economia. Contudo, PIB é uma forma perversa de se medir a economia dos países. O crescimento econômico de um país não significa que ele se tornou  um país rico. Rica é aquela nação que apresenta bons índices de desenvolvimento na área social ( o IDH ). Educação de qualidade, saúde, habitação condigna, água tratada, energia elétrica e esgoto sanitário  universalizados; transporte público rápido e seguro, sem desleixar o conforto dos passageiros; segurança, que assegure ao cidadão o direito de ir e vir, sem aquele malfeitor espreitando lá na esquina; ruas limpas, espaços públicos bem cuidados onde as pessoas possam encontrar condições de lazer. Entre outros requisitos básicos.

Infelizmente, o Brasil nunca teve uma liderança que olhasse  para o potencial de recursos naturais do nosso solo e subsolo. E tivesse a coragem de explorá-los com mão de obra, tecnologia e capital nacionais. É uma balela dizer que o Brasil é um país rico. O Brasil possui vasto potencial de recursos naturais, como ferro e outros, além de minas de ouro, prata, diamante, manganês,  urânio,  xisto e outros minerais  e uma enorme floresta tropical, uma bacia fluvial ainda não devidamente dimensionada, mas com certeza igual ou superior  às maiores do mundo. Todos esses recursos,  se devidamente aproveitados pelas nossas lideranças em favor da população em geral  poderão se transformar em riqueza real.

Nesse momento em que se discute a implantação de um trem de alta velocidade ligando São Paulo ao Rio de Janeiro e Minas Gerais, é lamentável que o País esteja subordinado aos interesses  das grandes corporações econômicas internacionais, representadas aqui pelo lobby corporativo junto ao Congresso,  ao Judiciário e ao Executivo. Vasculhando  as pesquisas de universidades brasileiras, como a USP e outras, encontram-se  projetos dos chamados trem-bala. Só falta o setor empresarial liberta-se da dominação do capital estrangeira, e investir na produção do TAV. Para isso, há no País dinheiro, mão de obra e tecnologia. Só falta decisão política. E coragem para enfrentar e vencer o lobby. É bom lembrar, que em plena segunda guerra mundial Getúlio Vargas mandou construir embarcações para patrulhar o litoral brasileiro. Eram navios construídos em madeira, numa época em que ainda não havia Volta Redonda nem o colossal parque do Vale do São Francisco.

Os militares privilegiaram o capital estrangeiro, e destruíram dois grandes projetos automobilísticos brasileiros: A  FNM e a Gurgel. Analogamente, depois da redemocratização se deu pouco valor à Embraer. Privatizada, ela estacionou. Agora mesmo, está perdendo contrato para fornecer 60 aeronaves aos Estados Unidos. Os aviões que estão sendo negociados para equipar a Força Aérea Brasileira (FAB) em substituição aos velhos aparelhos  franceses bem que poderiam ser fabricados pela Embraer. Assim como, uma indústria ferroviária poderia produzir trens e metros que viessem resolver os problemas de mobilidade urbana e viabilizar o transporte público de passageiros. País desenvolvido é País sobre trilhos.





             PELOS PORÕES DO FUTEBOL

Ricardo Teixeira pediu licença da presidência d CBF. Diante das denúncias e  do quadro de corrupção identificado na mentora do nosso futebol uma licença é o mesmo que nada. Depois de 60 dias ( prazo máximo para afastamento por licença), \teixeira reassumirá a presidência do órgão. Você acredita que ele vai deixar de mandar na CBF, mesmo “afastado”? Aquilo ali foi transformado num feudo  familiar,  para não dizer que é um raposário cercando o galinheiro do nosso futebol. Veja que  o substituto ( você o conhece?) já convocou os membros das “milícias” estaduais que são os presidentes de federações. Tem cheiro de podridão!

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Por falar em futebol, mas na verdade falando de política nacional, o secretário-geral da FIFA Jeróme Valcke, numa declaração irresponsável feita semana passada disse que as autoridades  brasileiras que cuidam dos preparativos para a Copa precisavam “Tomar um chute no traseiro” para acordar e intensificar as obras de construção dos estádios ( ou arenas) que receberão jogos das competições que serão realizadas no Brasil nos próximos anos. Copa é um  empreendimento  privado. Ou deveria ser. No Brasil, há mais autoridades oficiais envolvidas na questão do que empresários. Maquiavélicos, estes estão aguardando a oportunidade em que, prazo esgotado e obras inacabadas, o dinheiro público vai ser solicitado. Um caso para refletir.

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Ricardo Teixeira não é bobo. Convicto que não tem como disputar a presidência da FIFA com Michel Pratini, e sabendo que quando deixar a CBF logo após a Copa terá que responder ao Ministério Público às acusações de corrupção praticada por ele, seu sogro João Havelange e demais sequazes, prepara sua mudança para a Europa, onde pretende ficar a salvo da justiça. Ficará?

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Futebol é um campo minado. Cartolas de um lado,  clubes no meio e torcedores na outra ponta. O dinheiro corre frouxo nos cofres das federações, dos clubes bem organizados e, principalmente, da CBF. A máfia impera nos bastidores dos esportes. Os clubes menores, explorados por cartolas com intenções eleitoreiras, estes vão mal. Estão todos no cinzento, perto do vermelho. Enquanto isso, as torcidas organizadas, financiadas por diretores ou pelos próprios clubes, se digladiam nas imediações dos estádios. E os torcedores, apaixonados pelo futebol -  coitados deles – gastam seus minguados salários frequentando os campos de futebol.  

segunda-feira, 5 de março de 2012


                    E O SENHOR, QUEM É?
                                             Emílio J. Moura

    " -Gosto de pessoas sinceras, dessas que dizem na cara, não ficam se escondendo atrás de sombras anônimas nem fazendo maledicências". Essas palavras eram ditas por dona Tâmara, uma italiana de sotaque carregado dona de engenho de açúcar na zona da mata sul. Seu marido, um velho major da Guarda Nacional, havia morrido há alguns anos e ela resolveu tocar o negócio. A viúva espantava pelo aspecto exótico, nada agradável. Não tinha o hábito de tomar banho;  pele branca cheia de sardas pelo pescoço e pelas costas, que ela exteriorizava sem pudor devido às roupas bastantes decotadas que usava.
   Major Virgílio era um homem rude, duplamente rude. De pouca leitura e modos informais e violentos. Chefe político na sua área, só prestava conta ao coronel da usina lá nas quebradeiras do rio. Sempre vergando uma calça de mescla azul e camisa de algodão cinza - era sua marca inconfundível,  Virgílio tinha poucos cuidados com a aparência, desleixado com  a higiene pessoal e de costumes alimentícios frugais. Homem alto e forte, cor branca tostada do sol, montava seu alazão preferido em suas idas à cidade. Não fora por acaso que o major casara com dona Tâmara. Os pais dela chegaram ao Brasil em fins do século dezenove para implantar um parque irrigado para produção de frutas e verduras. Projeto arrojado, beneficiado pela água farta do rio a correr no vale bem ali. O negócio prosperou, a família ficou rica, principalmente depois que os trabalhadores braçais encontraram um pouco de ouro em filão no lagedo que espedaçavam para construir a casa dos patrões e dominar o rio, levando suas águas para mais perto da fazenda. Filho de lavrador, Vírgílio  acostumara-se à vida dura do campo. Ele e a mulher formavam um par perfeito, para seus padrões de convivência.
       Extinta a Guarda Nacional, libertados os negros escravos e implantados no Brasil os modos republicanos de regime mais assemelhado aos adotados pelos países europeus, pouca coisa mudou nas relações de trabalho do campo. E na estrutura do poder agrário. Apenas acrescentou-se um importante item de políticas públicas: a centralização da administração na capital. Agora quem mandava era o governador, com sua polícia treinada para atirar e só depois justificar. Foi numa investida no engenho de dona Tâmara de uma volante perseguindo bandoleiros que um major de verdade  se deparou com a italiana. A mulher deu ordens para ninguém entrar em suas terras, mas a volante já estava à entrada da casa grande. Apeando-se do cavalo de pelos vermelhos com largas listras brancas entre o pescoço e a barriga, o major foi logo fazendo perguntas à senhora de engenho. No seu português arrastado, dona Tâmara disse para o major que quem fazia perguntas ali era ela. O militar não pôde evitar uma ar de riso jocoso que já se arquitetava em seu rosto desde o instante em que viu dona Tâmara. Ordenou que a tropa entrasse na casa, revistasse todos os cômodos a procura de armas ou de sinais que indicasse acoitamento da senhora de engenho com os bandidos. Dona Tâmara, antes de ser empurrada escada abaixo por um tapa desferido pelo major, perguntou:
      -E o senhor, quem é?