E O
SENHOR, QUEM É?
Emílio
J. Moura
" -Gosto de
pessoas sinceras, dessas que dizem na cara, não ficam se escondendo atrás de
sombras anônimas nem fazendo maledicências". Essas palavras eram ditas por
dona Tâmara, uma italiana de sotaque carregado dona de engenho de açúcar na
zona da mata sul. Seu marido, um velho major da Guarda Nacional, havia morrido
há alguns anos e ela resolveu tocar o negócio. A viúva espantava pelo aspecto
exótico, nada agradável. Não tinha o hábito de tomar banho; pele branca cheia de sardas pelo pescoço e
pelas costas, que ela exteriorizava sem pudor devido às roupas bastantes
decotadas que usava.
Major Virgílio era
um homem rude, duplamente rude. De pouca leitura e modos informais e violentos.
Chefe político na sua área, só prestava conta ao coronel da usina lá nas
quebradeiras do rio. Sempre vergando uma calça de mescla azul e camisa de
algodão cinza - era sua marca inconfundível,
Virgílio tinha poucos cuidados com a aparência, desleixado com a higiene pessoal e de costumes alimentícios
frugais. Homem alto e forte, cor branca tostada do sol, montava seu alazão
preferido em suas idas à cidade. Não fora por acaso que o major casara com dona
Tâmara. Os pais dela chegaram ao Brasil em fins do século dezenove para
implantar um parque irrigado para produção de frutas e verduras. Projeto
arrojado, beneficiado pela água farta do rio a correr no vale bem ali. O
negócio prosperou, a família ficou rica, principalmente depois que os
trabalhadores braçais encontraram um pouco de ouro em filão no lagedo que
espedaçavam para construir a casa dos patrões e dominar o rio, levando suas
águas para mais perto da fazenda. Filho de lavrador, Vírgílio acostumara-se à vida dura do campo. Ele e a
mulher formavam um par perfeito, para seus padrões de convivência.
Extinta a Guarda
Nacional, libertados os negros escravos e implantados no Brasil os modos
republicanos de regime mais assemelhado aos adotados pelos países europeus, pouca
coisa mudou nas relações de trabalho do campo. E na estrutura do poder agrário.
Apenas acrescentou-se um importante item de políticas públicas: a centralização
da administração na capital. Agora quem mandava era o governador, com sua
polícia treinada para atirar e só depois justificar. Foi numa investida no
engenho de dona Tâmara de uma volante perseguindo bandoleiros que um major de
verdade se deparou com a italiana. A
mulher deu ordens para ninguém entrar em suas terras, mas a volante já estava à
entrada da casa grande. Apeando-se do cavalo de pelos vermelhos com largas
listras brancas entre o pescoço e a barriga, o major foi logo fazendo perguntas
à senhora de engenho. No seu português arrastado, dona Tâmara disse para o
major que quem fazia perguntas ali era ela. O militar não pôde evitar uma ar de
riso jocoso que já se arquitetava em seu rosto desde o instante em que viu dona
Tâmara. Ordenou que a tropa entrasse na casa, revistasse todos os cômodos a
procura de armas ou de sinais que indicasse acoitamento da senhora de engenho
com os bandidos. Dona Tâmara, antes de ser empurrada escada abaixo por um tapa
desferido pelo major, perguntou:
-E o senhor, quem
é?
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