NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

sábado, 31 de março de 2012



                 UMA SOCIEDADE
           EM TRANSFORMAÇÃO  I

As transformações por que tem passado a sociedade brasileira vêm sendo registradas  não apenas pelos historiadores,  mas também pelos artistas populares através do cordel e da música. Quem viveu as décadas de 20-40 do século passado  sabe  como era diferente essa sociedade, quer nos seus aspectos econômicos, quer na questão comportamental. Economicamente, houve uma indiscutível mudança positiva com a distribuição da renda antes concentrada nas mãos do  usineiro, do senhor de engenho, do industrial de todos os portes e dos comerciantes de todas as categorias. Estes e outros  empresários constituíam a elite social da época, e pouco se importavam com o fator educação; só os seus filhos tinham acesso ao estudo. O restante era mantido na ignorância. Bem pouco diferente  dos dias de hoje, quando as velhas elites  políticas têm pouco interesse numa educação transformadora das populações mais carentes. Manter o povo na ignorância é uma forma de manipulá-lo, seduzindo-o com falsas  promessas de melhoria de vida. A carência social dessas populações mais pobres leva parte dos seus integrantes a trocarem votos por cestas básicas e bens materiais  como tijolo, telha, cimento e outros mais; quando não vendem seu voto por quaisquer importância pecuniária de menor valor.
No Nordeste, nas décadas citadas, principalmente nas pequenas cidades do interior, os cordelistas contavam em versos divulgados por livretos chamados  folhetos vendidos nas feiras livres a vida das populações dos engenhos e dos sítios da zona da mata e do Agreste. Davam ênfase às paixões dos jovens e  aos amores proibidos de mulheres casadas que fugiam com seus amores clandestinos. Situação verdadeiramente inversa ao que realmente acontecia nos engenhos e sítios desses rincões. As testemunhas oculares desse período histórico de nossa gente descrevem um ambiente diferente. As moças, quase todas analfabetas, trabalhavam na enxada num ciclo  familiar estruturado e de costumes simples. Nas noites de lua brincavam no terreiro da casa grande do engenho ou em frente a uma das casas dos sítios. Jogavam academia, faziam dança de roda e improvisavam versos geralmente numa referência indireta a algum pretendente. Namorar só no momento das danças, quando trocando de pares seguravam a mão do paquera. Fora disso, era namoro autorizado, noivado e casamento. As mulheres casadas, embora subjugadas pelos maridos numa sociedade fortemente machista, se portavam de forma exemplar. A linguagem então usada era a mais decente possível, diferente do que se constata nas casas, nas ruas, nas escolas e nos locais de trabalho de hoje
No Sul, particularmente no rio, Ari Barroso, produtor teatral, compositor e radialista famoso da década de 50-60  pintou com tintas berrantes a miséria das populações cariocas que moravam nos morros. Transformou a miséria de uma gente sofrida  num festival lírico que nada tem a ver com a realidade daquelas pessoas. Se sua obra abriu discussão sobre como era difícil morar nos morros do Rio, por outro lado num desserviço à Nação deu a entender que aquele era um povo feliz. Em Chão de estrelas,  uma de suas mais belas composições, fala de “Nosso teto de zinco furado enchia de estrelas nosso chão”; e vai mais longe, quando diz que “Nossos trapos nos varais dependurados pareciam um eterno festiva ... a mostrar que nos morros mal vestidos  é  sempre feriado nacionall”, para arrematar que: “A felicidade do caboclo era um barraco, uma mulata e um violão”. Um outro compositor, mais realista, narra na sua música: "Lata d´água na cabeça/ lá vai Maria/ sobe o morro e não se cansa/ leva ao colo uma criança/ lá vai Maria ..."

Roberto Silva, cantor e compositor dos morros cariocas nas décadas de 30-40 , em dois sambas de raiz, define o ambiente social e o clima ético e psicológico que envolvia a pobre gente dos barracos de lona dos morros cariocas. Numa composição  gravada no começo da década de 40 descreve o homem e a mulher típicos dos morros; o homem sempre retratado na pessoa do malandro e a mulher, eterna empregada doméstica que divide seu tempo entre os folguedos noturnos do morro e o trabalho de dia nas casas das famílias de poder aquisitivo do asfalto. Vejamos o que diz: “Quase todo crioulo do morro é sambista/quase toda mulata bonita é artista/desempenha diversos papéis sozinha/ à noite ela samba no morro/ de dia ela enfrenta a cozinha/trata bem o senhor branco/ bem melhor a sinhazinha/ de noite traz um jogo de marmita/ com arroz de forno e galinha/ e o crioulo espera sempre/ lá no morro a rainha/ ela não dá importância ao tititi da candinha”. Noutro samba intitulado  Maria da Penha, o cantor descreve uma cena que seria inusitada nos dias de hoje, realçando os costumes comportamentais da época. Vejamos: “Hoje não tem ensaio na escola de samba/o morro tá triste e o pandeiro calado / Maria da Penha, a porta-bandeira/ ateou fogo às vestes por causa do namorado / o seu desespero foi por causa de um véu / a pobre infeliz teve vergonha de ser mãe solteira”.


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