RECIFE DOS MEUS SONHOS
Emílio J.
Moura
(emiliojmoura@hotmail.com)
O Recife da minha infância ainda não tinha aeroporto nem BRs. Nem
tinha esses gaiolões de concreto e vidros onde hoje a classe média se protege
da violência a campear lá fora. Os hidroaviões desciam nas águas mansas da
bacia do Pina, e taxiavam deslizando até ao cais de Santa Rita, onde ficava a
agência da Panair. Aí ocorriam os embarques e desembarques de passageiros. O
transporte marítimo prevalecia. Cargas vindas da parte sul do Estado com
destino à parte norte passavam pela rua imperial, então único acesso nessa
direção. Recife era uma cidade acolhedora, a um só tempo mística e mítica.
Encantava por suas belezas naturais, pela singeleza de sua gente e por seus
contrastes. O alagado de São José, com seu manguezal em cujas bordas casebres
acobertavam as camadas mais pobres da cidade, e impedia o crescimento da urbe. Quando
a maré alta chegava, as águas causavam estragos à linha do trem e salpicavam os
fundos das casas da rua imperial. Os habitantes dos casebres não conseguiam
chegar às suas casas, porque as águas tinham invadido tudo. Quando do aterro do
grande alagado, a dragagem retirou milhares de toneladas de areia do braço
morto do Capibaribe. E destruiu um ecossistema marinho onde se multiplicavam
moluscos e crustáceos e os peixes se reproduziam. Os mocambos já se avolumavam
nos bairros centrais, nos córregos e encostas dos morros da cidade.
Recife do Chupa e
dos depósitos de lixo no bairro de São José, cuja fumaça produzida pela queima
do entulho incomodava os habitantes da rua imperial. Recife do portuga, seu
Manoel – “o pai do Chupa” -, pobre homem abandonado por seus patrícios e que
trazia os dedos cheios de anéis garimpados ao lixo, várias vezes revirado e de
onde recolhia até a comida que o sustentava; criatura estranha, de roupas sujas
e fétidas, com calças remendadas, que não desprezava um paletó nem um chapéu;
que carregava num saco às costas todos os seus bens e pertences: tenda feita
com sobras de lona por ele mesmo costuradas, pratos, canecos, facas, colheres,
panelas e caçarolas. Tudo tirado do lixo. Que não tinha o hábito de tomar
banho, e o grude incrustado na pele largava aos pedaços.
Recife dos trens
urbanos e interurbanos. Jaboatão, Cabo, Maceió. As locomotivas fumacentas,
barulhentas e vagarosas, em estrada de ferro de bitola estreita, arrastando
vagões de assentos duros transportando muitos passageiros. A Estação Central,
marco arquitetônico de uma época, era uma referência no nordeste. O transporte
de massas concentrado no trem, como convém a uma cidade que se presa. Mas
faltava muito para ser um serviço de excelência. Recife dos bondes, de luxo ou
populares - estes com reboques - que interligavam quase todos os pontos da
cidade. Costumava viajar aos domingos na linha Pedro II, e descia em frente do
hospital para assistir aos jogos do time do Colônia no campo do Boa Idéia, numa
ampla área de sítios hoje ocupada pelo bairro de classe alta da Ilha do Leite.
A quebra do sistema de bondes complicou a vida da Capital. A Pernambuco
Autoviária Ltda. e a João Tude de Melo (Progresso), iniciavam o serviço
rodoviário de passageiros com veículos modernos contando com bus-moças e
equipados com serviço de rádio de comunicação. A concorrência inviabilizou
essas empresas. Outras empresas surgiram. Esse serviço logo se degenerou, e
cedo os carros luxuosos das duas primeiras concessionárias foram substituídos
por ônibus apertados e imundos. Automóveis era uma raridade nas ruas da cidade.
Recife, outrora
cidade-mãe acolhedora, limpa e pacífica. Recife da Rua de Jangada, da
Gameleira, do Bode, do areal (hoje Brasília Teimosa), de Fernandinho, Engenhoca
e Coque. Dos córregos de Casa Amarela, Água Fria e outros bairros. Dos bairros
nobres do Espinheiro, Graças, Aflitos, Torre-Madalena e outros. E dos
arrabaldes bem estruturados. De ruas arborizadas por oitizeiros e acácias. As
casas parede-meia onde à noite os moradores instalavam cadeiras nas calçadas e
conversavam como se fosse uma família só. Das meninas-moças jogando academia e
brincando de dança de roda nas largas calçadas em frente de suas casas. Lembro
quando, num intervalo de jogo no Chupa, bati na porta de uma casa da rua
imperial e pedi água. A distinta velhinha apareceu e me viu sem camisa,
descalço e suado. “Coitadinho, ele tem fome!”, disse com olhar piedoso.
Enquanto eu tomava a água servida pela empregada, a bondosa anciã me trazia um
prato com biscoitos, doce e um copo de ponche.
Ela queria que eu descansasse um pouco mais, mas eu tinha pressa em partir.
Voltar ao jogo. Hoje, crianças abandonadas perambulam esmolambadas pelas ruas
da cidade, cheirando cola. E há autoridades e instituições a afirmarem que
criança tem o direito de estar onde quiser e fazer o que quiser; idosos sofrem
nos transportes mal cuidados e nas filas dos hospitais e dos bancos.
Recife, menina pudica
que se tornou mulher escrachada; perdeste a virgindade e te tornaste
prostituta. E qual mãe desalmada, abandonas tuas crianças à própria sorte.
Esqueces que direito de criança é estar na escola, de boa qualidade e em tempo
integral. Ignoras que velhinhos necessitam de aconchego familiar, alimentação
balanceada, transporte público de qualidade e de fácil acesso; de lazer e
assistência médica. Merecem respeito! Pelo muito que fizeram na construção
dessa “cidade cruel” que hoje os sataniza. Recife do porto fervilhando de
trabalhadores carregando os sacos do açúcar que fazia tua riqueza de terceira
cidade do Brasil. Recife de Nascimento Grande, Cícero da Gameleira, Otacílio da
Rua de Jangada e tantos outros “brabos” que não espreitavam o cidadão na calada
da noite; enfrentavam seus adversários de peito aberto e sob a luz do sol.
Avenida Saturnino de Brito (hoje resta um pedaço), berço da elite da Cabanga e
da zona sul da cidade, por onde os bondes passavam antes de atravessar os
setecentos metros da velha ponte de ferro. Dos manguezais do Pina e de Boa
Viagem, aterrados nos anos quarenta e onde hoje reside a elite da cidade; dos
morros de Casa Amarela e Água Fria,
quando os baixo-falantes
(toscas máquinas receptoras com um imã e um auto-falante feito de cartolina, e
que necessitavam de antenas quilométricas para funcionar) tocavam músicas
populares através das ondas sonoras da PRA-8, então única emissora de rádio do
estado. Recife dos sambas e das canções de Roberto Silva, Carlos Galhardo,
Dalva de Oliveira, Orlando Silva e Francisco Alves, cantadas em meio à
chiadeira dos pesados discos de dois lados. Recife, de Banhistas do Pina,
Batutas de São José, Lira da Noite, Madeira do Rosarinho; dos Clubes de
Alegorias os Quatro Diabos e Anjos Rebeldes; de Pão-Duro, Pão da Tarde, Prato
Misterioso, Rebeldes Imperial e de tantos outros clubes, troças e blocos; dos
caboclinhos; de mateus e catarinas; dos maracatus; de dona Santa. De pregoeiros
e vendedores excêntricos (“chá preto e pente”; “menooooooor”). Recife, de
Nelson Ferreira, Pádua Walfrido, Capiba e tantos outros músicos cujos nomes a
cidade sequer lembra que existiram.
Recife antiga,
de gente simples, população sem escola, sem emprego e sem renda certa, mas,
assim mesmo, feliz. Quando a gente andava a pé pelo prazer de fazê-lo.
Diferente de hoje, quando se anda a pé por falta de condições para pagar o
transporte. Recife das histórias de assombrações; do lobisomem, do papafigo, do
zamurim, da porca preta com seus cem porquinhos, da mula sem cabeça e de tantas
outras excentricidades da cultura de um povo ainda em processo de formação.
Recife das visitas do Zepelin, pairando sobre a cúpula do prédio do Diário de
Pernambuco; do matadouro da Cabanga, cujo toque de búzio, tarde da noite,
anunciava aos mais pobres que as carnes não vendidas podiam ser retiradas do
balcão; de graça; Recife dos lamaçais perto do matadouro, onde ninguém se
atrevia penetrar e carcaças de cabeças bovinas exibindo grandes chifres eram
vistas na superfície escura quando a maré baixava. E nesse atoleiro uma criança
caiu e foi salva pelos bombeiros somente quando sua cabeça já estava preste a
afundar na lama. Recife dos incêndios que destruíram a Rua de Jangada. Recife
dos tempos da segunda grande guerra, quando a cidade vivia às escuras temendo
um bombardeio aéreo nazista à noite. Recife moderna, de povo sem trabalho, sem
transporte condigno, sem saúde e sem segurança, por isso mesma com medo; de
bispo-santo, feito Dom Helder Câmara. Apesar de toda essa crônica de sofrimento
e horrores, Recife, tua história visita meus sonhos e ainda me apaixona; tuas
pontes e teus rios, teus contrastes e teu povo exercem sobre mim indescritível
fascínio.
Ó, Recife ingrata, se
algo de mística e de mítica sobrou de ti, devolve-me à minha infância!
Crônica de 10.03.1970.
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