NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

domingo, 8 de abril de 2012




                     UMA SOCIEDADE

              EM TRANSFORMAÇÃO II

Na época da fase área da cana-de-açúcar, com o advento da mecanização dessa lavoura através da implantação das usinas que substituíram o engenho banguê as populações do Nordeste tiveram uma perda significativa da qualidade de vida. O aumento da demanda do açúcar criou postos de trabalho na usina e a maioria desses trabalhadores   passou a residir no entorno das fábricas de açúcar. Como o período de produção do açúcar é curto, os trabalhadores não diretamente vinculados às atividades industriais da usina eram dispensados. Criou-se o êxodo rural; os trabalhadores incharam as cidades mais próximas e logo se alojaram de qualquer forma nas cidades grandes, principalmente nas capitais. É o início da favelização das capitais do Nordeste. Com o hábito introduzido pelas usinas de descarregar os resíduos líquidos provenientes da produção nos rios veio o rápido desaparecimento dos peixes dos rios, e assim os trabalhadores ficaram sem sua principal fonte de alimento. O êxodo rural se intensificou. Dessa época também é a caderneta do barracão. Prática maquiavélica que mantinha o trabalhador como um semiescravo, a caderneta era um elo que acorrentava o pobre trabalhador da cana-de-açúcar preso ao patrão. No dia do pagamento, geralmente um sábado à noite, o trabalhador constatava que não tinha o que receber, mas sim possuía um passivo; o administrador do engenho, então, emitia uma vale com o qual o pobre miserável comprava a provisão para a semana seguinte. E essa situação perdurava por meses. No barracão só existi o básico para um refeição precária: bolacha, peixe salgado, farinha, Café, açúcar, sal, feijão (algumas vezes) e querosene para alimentar a lamparina da casa do trabalhador.

A industrialização das capitais absorveu grande parte da mão de obra descartada pelas usinas. Mas as populações mais carentes  passaram a residir em favelas nos morros, córregos e alagados. A política social dos institutos de previdência da época possibilitou a construção de conjuntos habitacionais para determinadas categorias. O BNH também implementou planos de construção de habitações populares, mas essas políticas emperraram em meio à corrupção e com a burocracia cedo os órgãos encarregados do setor foram a falência. Atualmente, temos significativas melhorias das condições de vida das populações, mas o baixo nível de educação e a inexistência até bem pouco tempo de escolas técnicas e cursos profissionalizantes em larga escala deixou muitos dos trabalhadores não qualificados sem empregos que lhes oferecessem uma remuneração condigna.

Deixemos de lado Ari Barroso, que pintou um quadro permanentemente festivo para um povo sofredor que habitava barracos de lona nos morros cariocas desprovidos de água encanada, sem luz elétrica e  transportes de passageiros, sem qualquer tipo de saneamento básico e onde não havia escolas. Lembremo-nos  das músicas impactantes  gravadas por Roberto Silva naqueles discos de dois lado, uma de cada lado. Falamos dos folhetos escritos pelos poetas populares que conheciam bem a alma do nosso povo e que eram vendidos em feiras livres do Nordeste. Depois dessa fase romanceada e que deu um falso brilho a uma sociedade carente de tudo, foram ainda várias décadas para surgirem novas escolas e o ensino básico se popularizar. Cuidaremos dessa questão no próximo capítulo.

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