UMA SOCIEDADE
EM TRANSFORMAÇÃO II
Na época da fase área da cana-de-açúcar, com o advento da
mecanização dessa lavoura através da implantação das usinas que substituíram o
engenho banguê as populações do Nordeste tiveram uma perda significativa da
qualidade de vida. O aumento da demanda do açúcar criou postos de trabalho na
usina e a maioria desses trabalhadores passou a residir no entorno das fábricas de
açúcar. Como o período de produção do açúcar é curto, os trabalhadores não
diretamente vinculados às atividades industriais da usina eram dispensados.
Criou-se o êxodo rural; os trabalhadores incharam as cidades mais próximas e
logo se alojaram de qualquer forma nas cidades grandes, principalmente nas
capitais. É o início da favelização das capitais do Nordeste. Com o hábito
introduzido pelas usinas de descarregar os resíduos líquidos provenientes da
produção nos rios veio o rápido desaparecimento dos peixes dos rios, e assim os
trabalhadores ficaram sem sua principal fonte de alimento. O êxodo rural se intensificou.
Dessa época também é a caderneta do barracão. Prática maquiavélica que mantinha
o trabalhador como um semiescravo, a caderneta era um elo que acorrentava o
pobre trabalhador da cana-de-açúcar preso ao patrão. No dia do pagamento,
geralmente um sábado à noite, o trabalhador constatava que não tinha o que
receber, mas sim possuía um passivo; o administrador do engenho, então, emitia
uma vale com o qual o pobre miserável comprava a provisão para a semana seguinte.
E essa situação perdurava por meses. No barracão só existi o básico para um
refeição precária: bolacha, peixe salgado, farinha, Café, açúcar, sal, feijão
(algumas vezes) e querosene para alimentar a lamparina da casa do trabalhador.
A industrialização das capitais absorveu grande parte da mão
de obra descartada pelas usinas. Mas as populações mais carentes passaram a residir em favelas nos morros,
córregos e alagados. A política social dos institutos de previdência da época
possibilitou a construção de conjuntos habitacionais para determinadas
categorias. O BNH também implementou planos de construção de habitações
populares, mas essas políticas emperraram em meio à corrupção e com a
burocracia cedo os órgãos encarregados do setor foram a falência. Atualmente,
temos significativas melhorias das condições de vida das populações, mas o
baixo nível de educação e a inexistência até bem pouco tempo de escolas
técnicas e cursos profissionalizantes em larga escala deixou muitos dos
trabalhadores não qualificados sem empregos que lhes oferecessem uma
remuneração condigna.
Deixemos de lado Ari Barroso, que pintou um quadro permanentemente
festivo para um povo sofredor que habitava barracos de lona nos morros cariocas
desprovidos de água encanada, sem luz elétrica e transportes de passageiros, sem qualquer tipo
de saneamento básico e onde não havia escolas. Lembremo-nos das músicas impactantes gravadas por Roberto Silva naqueles discos de
dois lado, uma de cada lado. Falamos dos folhetos escritos pelos poetas
populares que conheciam bem a alma do nosso povo e que eram vendidos em feiras
livres do Nordeste. Depois dessa fase romanceada e que deu um falso brilho a uma
sociedade carente de tudo, foram ainda várias décadas para surgirem novas
escolas e o ensino básico se popularizar. Cuidaremos dessa questão no próximo
capítulo.
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