ZONA DA MATA, RIO UNA
Interior, anos 30, casa grande
vendo-se de lá o rio que corre tranquilo
lá distante. Ao andarmos pelos arredores, cheiro de mato; a grama verde onde o
gado pasta mansamente. Gente simples e honrada
vestida de trapos lavra a terra
perto do canavial, erradicando a erva que suga os nutrientes do solo fértil e
úmido que alimentam a cana-de-açúcar. Zona da Mata, céu azul com nuvens escassas no fim
do mês de maio. O tempo vai mudando, um,
dois dias passam. O milharal alto e
exuberante se espalha em grande extensão pelas encostas ao lado da cana. Promessa
de uma São João farto. Pouco tempo
depois, na cozinha da casa grande o trabalho é intenso. Mulheres do engenho e
dos sítios subordinados vêm ajudar no trato do milho trazido em lombo de
jegues. Não custa muito, e a grande mesa da sala enorme está repleta de comidas juninas. Canjica,
pamonha, mungunzá; bolo de milho, bolo
de massa, bolo de mandioca, pé-de-moleque, manuê, milho cozido, milho assado e outras iguarias. Desde a tarde, em
frente à casa grande, uma grande fogueira arde e
sanfona, reco-reco e triângulo animam a véspera de São João no terraço em forma
de “U”. A festa é animada e atrai gente dos arredores, inclusive dos engenhos
do entorno. As moças brincam de academia; também fazem suas rezas típicas dessa
época. Compadres e comadres dançam em torno da fogueira. Pela madrugada, ainda
resta muita comida sobre a mesa. São
Pedro ajuda, controlando as torneiras lá em cima. Mas o tempo tende a muda nas
próximas horas ou nos próximos dias; de fato, agora chove! Chuva leve ao amanhecer persiste até cair o manto da
noite. À noite, o céu fica escuro e temporal cai com fúria sobre a região para
desespero dos ribeirinhos. Raios riscam o espaço e acendem a noite; trovões, como ecos fantasmas vindo lá dos montes
distantes amedrontam ainda mais aquela gente simples e
desinformada. Linguetas de fogo descem do céu e iluminam a noite fria do
engenho. Tudo agora é expectativa!
Como naquele ritual dos tambores
comunicantes das mensagens indígenas dos filmes americanos, gritos e ecoam ao longo das margens do rio em meio à escuridão da noite. As águas
vão chegando devagarinho; num minuto,
são sentidas levemente sob os pés de quem está lá pela
várzea; logo chegam à cintura dos trabalhadores que buscam fugir para as
margens. De repente, numa velocidade medonha, as águas chegam em torrentes violentas como paredes imensas
desmoronando sobre a paisagem campestre.
Formações rochosas, árvores, montes são cobertos pela avalanche. Trabalhadores ribeirinhos, homens, mulheres e
crianças se abrigam no pico dos montes protegidos apenas pelas árvores e alguns
trapos que conseguiram salvar. Noite
tenebrosa; gente com medo sob o frio cortante em meio aos ventos fortes que
uivam na sua passagem vertiginosa e
perigosa, açoitando a copa das árvores. Pela manhã, a água já baixou; a visão até onde a vista
alcança é de terra devastada; tristeza, desesperança, mortes. A cheia, anunciada
pelas vozes vindas de longe, carrega em
sua fúria melancia, jerimum, melão; Troncos de árvores, bois muando, cabras, carneiros; barris, restos de casas,
móveis rústicos, jangadas, barcos, tudo que ficou ao alcance das águas; uma
cena horripilante. Tudo é desolação e tristeza! Ribeirinhos ainda procuram abrigo nas partes mais altas. Não tem para
onde voltar; suas casas foram levadas pela cheia. Rio Uma, curvas fechadas por
onde as águas transbordam e se espraiam; poços, cachoeiras; Piabas, traíras, aratanhas, pitu, jiboias, jacarés; Capivaras, lontras;
baronesas, leito barulhento. Rio Uma, margens
já nuas,
desmatadas; águas poluídas pelo rejeito da fabricação do açúcar, riqueza local. Interior, Zona da Mata;
tudo volta a ser canavial; aquele tapete
verde se alongando pela planície e montes acima. A caça escassa, a mata extinta, fogo nas
canas. Os pássaros já sumiram da paisagem. A onça que se alimentava das capivaras
abundantes no rio de há muito desapareceu; macacos também; a mata substituída
pelo canavial, levou a secar as fontes, acabou com os riachos. Zona da Mata, rio Uma, sem mata ciliar e
assoreado; sem peixes; fome, doenças, desnutrição, tristeza,
embriaguez. Homens, mulheres e crianças, não tendo mais o que fazer, se afogam na bebida. Pobreza, prostituição, terras abandonadas; Êxodo rural contribuindo
para formação das favelas na Capital e outras cidades litorâneas onde
crustáceos e moluscos abundantes são um
meio alternativo para enfrentar a
fome ; lugar quase ermo, aquele do
antigo engenho onde canários e rolinhas
antigamente desciam às centenas vindo se alimenta da farta gramínea existente
por trás do lajedo ao lado da casa grande ; engenho hoje desaparecido, povoação
escassa, sem trabalho. Infância perdida, sem escola, sem lazer, sem futuro.
Zona da Mata, rio Uma, uma história que vivi quando era criança.
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