NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

domingo, 8 de julho de 2012


                           

                               ZONA DA MATA, RIO UNA



Interior, anos 30, casa grande vendo-se de lá o rio que corre  tranquilo lá distante. Ao andarmos pelos arredores, cheiro de mato; a grama verde onde o gado pasta mansamente. Gente simples e honrada  vestida de trapos  lavra a terra perto do canavial, erradicando a erva que suga os nutrientes do solo fértil e úmido que alimentam  a cana-de-açúcar.  Zona da Mata, céu azul com nuvens escassas no fim do mês de maio.  O tempo vai mudando, um, dois dias  passam. O milharal alto e exuberante se espalha em grande extensão pelas encostas ao lado da cana. Promessa de uma São João farto.  Pouco tempo depois, na cozinha da casa grande o trabalho é intenso. Mulheres do engenho e dos sítios subordinados vêm ajudar no trato do milho trazido em lombo de jegues. Não custa muito, e a grande mesa da sala enorme  está repleta de comidas juninas. Canjica, pamonha,  mungunzá; bolo de milho, bolo de massa, bolo de mandioca, pé-de-moleque, manuê, milho cozido, milho assado  e outras iguarias. Desde a tarde, em frente  à  casa grande, uma grande fogueira arde e sanfona, reco-reco e triângulo animam a véspera de São João no terraço em forma de “U”. A festa é animada e atrai gente dos arredores, inclusive dos engenhos do entorno. As moças brincam de academia; também fazem suas rezas típicas dessa época. Compadres e comadres dançam em torno da fogueira. Pela madrugada, ainda resta muita comida sobre a mesa.  São Pedro ajuda, controlando as torneiras lá em cima. Mas o tempo tende a muda nas próximas horas ou nos próximos dias; de fato, agora chove! Chuva leve  ao amanhecer persiste até cair o manto da noite. À noite, o céu fica escuro e temporal cai com fúria sobre a região para desespero dos ribeirinhos.  Raios  riscam  o  espaço e acendem a noite; trovões,  como ecos fantasmas vindo lá dos montes distantes   amedrontam  ainda mais aquela gente simples e desinformada. Linguetas de fogo descem do céu e iluminam a noite fria do engenho. Tudo agora é expectativa!   

Como naquele ritual dos tambores comunicantes das mensagens indígenas dos filmes americanos, gritos e ecoam  ao longo das margens  do rio em meio à escuridão da noite. As águas vão chegando devagarinho;  num minuto, são sentidas  levemente  sob os pés de quem está lá  pela  várzea; logo chegam à cintura dos trabalhadores que buscam fugir para as margens. De repente, numa velocidade medonha, as águas chegam  em  torrentes violentas como paredes imensas desmoronando sobre a paisagem  campestre. Formações rochosas, árvores, montes   são cobertos pela avalanche.  Trabalhadores ribeirinhos, homens, mulheres e crianças se abrigam no pico dos montes protegidos apenas pelas árvores e alguns trapos que conseguiram salvar.  Noite tenebrosa; gente com medo sob o frio cortante em meio aos ventos fortes que uivam na sua passagem  vertiginosa e perigosa, açoitando a copa das árvores. Pela manhã,  a água já baixou; a visão até onde a vista alcança é de terra devastada; tristeza, desesperança, mortes. A cheia, anunciada pelas vozes vindas de  longe, carrega em sua fúria melancia, jerimum, melão; Troncos de árvores, bois muando,  cabras, carneiros; barris, restos de casas, móveis rústicos, jangadas, barcos, tudo que ficou ao alcance das águas; uma cena horripilante. Tudo é desolação e tristeza! Ribeirinhos  ainda procuram  abrigo nas partes mais altas. Não tem para onde voltar; suas casas foram levadas pela cheia. Rio Uma, curvas fechadas por onde as águas transbordam  e  se espraiam;  poços, cachoeiras; Piabas, traíras, aratanhas,  pitu, jiboias, jacarés; Capivaras, lontras; baronesas, leito barulhento.  Rio Uma, margens    nuas, desmatadas; águas poluídas pelo rejeito da fabricação do  açúcar, riqueza local. Interior, Zona da Mata; tudo volta a ser  canavial; aquele tapete verde se alongando pela planície e  montes acima.  A caça escassa, a mata extinta, fogo nas canas. Os pássaros já sumiram da paisagem.  A onça que se alimentava das capivaras abundantes no rio de há muito desapareceu; macacos também; a mata substituída pelo canavial, levou a  secar  as fontes, acabou com os riachos.  Zona da Mata, rio Uma, sem mata ciliar e assoreado;  sem peixes;  fome, doenças, desnutrição, tristeza, embriaguez. Homens, mulheres e crianças, não tendo mais o que fazer,  se afogam na bebida. Pobreza, prostituição,  terras abandonadas; Êxodo rural contribuindo para formação das favelas na Capital e outras cidades litorâneas onde crustáceos e moluscos abundantes  são um meio  alternativo para enfrentar a fome  ; lugar quase ermo, aquele do antigo engenho onde  canários e rolinhas antigamente desciam às centenas vindo se alimenta da farta gramínea existente por trás do lajedo ao lado da casa grande ; engenho hoje desaparecido, povoação escassa, sem trabalho. Infância perdida, sem escola, sem lazer, sem futuro. Zona da Mata, rio Uma, uma história que vivi quando era criança.








































































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