UM RETRATO VELHO NA PAREDE
Funcionário que
trabalhava sob minhas ordens costumava rotular colegas. Nem o chefe escapava
das comparações bobas do irrequieto,
sempre bem humorado e debochado amigo. Certa vez, olhando fixo para um colega
que havia terminado o curso de economia, começou a descrever o perfil do mesmo.
Mostrou - apontando o dedo, o contorno do rosto, a forma de pentear o cabelo, o
bigode, o nariz espichado, os olhos "quase mortos", as enormes orelhas
e um sinal na bochecha que chamou de "pinta". Desceu o olhar, e analisou o pescoço curto do
rapaz. Mais abaixo, a beca, com camisa
clara, colete, paletó jaquetão, gravata borboleta; nada escapava à
análise do incômodo
"retratista".
A parte de baixo,
calça, sapatos, meias, ah, isso não interessava. O foco da observação era tórax,
pescoço, cabeça... A cena já inquietava os circunstantes, pois se aproximava o
fim do repouso pós almoço e a hora de
retornar ao batente, atender ao público carente de assistência médica. Mas o
debochado do colega não se dava por
satisfeito. Nem vencido. E tascava comentários. Interessante era que a figura
do quase insólito colega também era risível. Ele sabia contar piadas como
ninguém. E arrancava risos da platéia só em se mexer, se posicionar para a
piada. essas coisas pouco importavam para ele.Seu objetivo era fazer rir, ainda
que às custas do constrangimento alheio. Pois é: avisei que ia começar o
atendimento, e o nosso herói de epopeias hilárias resumiu toda a sua observação numa frase ridícula,
dizendo que o neo-formando parecia um daqueles retratos velhos na parede.
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