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sexta-feira, 25 de março de 2011

           O  CHORUME DOS CORPOS DOS MISERÁVEIS
                                                            Emílio J. Moura

                                                (emiliojmoura@hotmail.com)



Há duas semanas a sociedade pernambucana assiste estarrecida o drama de dezenas de famílias reclamando do IML a liberação dos corpos dos seus parentes para poderem sepultá-los. Só querem isso: sepultar seus mortos. Mas está difícil conseguir a liberação. Médicos-legistas do IML em campanha salarial iniciaram a chamada Operação padrão, uma espécie de greve não declarada a que se convencionou chamar "greve branca". Com isso, limitam o número de necropsias por dia e o resultado é a retenção indevida e infame dos corpos que chegam para determinação da causa do falecimento dos mesmos. Muitas famílias esperam há mais de uma semana pela boa vontade do médicos-legistas. Essa greve não tem nada de branca, pois negra é a ação de quem impinge tamanho sofrimento a quem já sofre a perda de um ente querido.

Justificando o movimento, médicos-legistas reclamam dos baixos salários e das péssimas condições de trabalho na sala de necropsias do IML. Arranjaram inclusive uma foto onde corpos jaziam no chão de uma sala imunda; reclamaram do raio-x quebrado, da falta de espaço na câmara frigorífica para acondicionamento dos corpos que iam chegando; as reclamações não param por ai: iluminação deficiente, exaustores que não funcionam para purificação do ar malcheiroso da sala de exames. Entre outras.

A Secretaria de Defesa Social (SDS), através do seu titular delegado federal Wilson Damásio, rebateu algumas das alegações dos grevistas e mostrou um cronograma de obras para revitalização do IML. Informou o secretário que a demora no início das obras se devia ao fato de nenhum empresa aceitar a tarefa proposta. Mas, ainda assim, determinou que os trabalhos começassem na 2ª-feira. Como de fato começaram, e já estão praticamente concluídos. Na tentativa de minimizar os efeitos da greve, entraram em ação duas instituições respeitáveis: o Conselho Regional de Medicina (CREMEPE) e o Ministério Público (MP), além do Sindicato dos Médicos de Pernambuco. O movimento dos legista, de forte conotação corporativa, inibiu esses órgãos no cumprimento dos seus deveres legais. O Ministério Púbico limitou-se a sugerir que os corpos fossem liberados "sem a determinação da causa da morte". E o CREMEPE, aliando-se ao corporativismo dos legistas, determinou a interdição da sala de exames do IML. As atividades de examinar os cadáveres foram transferidas para o Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), da Faculdade de Medicina da Universidade federal de Pernambuco (UFPE), na Cidade Universitária. O SVO é um serviço destinado a examinar os corpos dos pacientes falecidos no Hospital das Clínicas da UFPE dentro da grade de ensino do Curso Médico dessa universidade onde os alunos estagiam na parte referente à disciplina de Medicina Legal. E, secundariamente, dar suporte ao IML. Não tem, pois, estruturas físicas para atender uma demanda que já abarrota o IML. E os legistas levaram para o campus universitário seu movimento reivindicatório.

Não se nega aos médicos-legistas do IML o direito de reivindicarem melhorias salariais e condições de trabalho mais dignas. Mas não se pode calar diante do sofrimento de dezenas de famílias que querem apenas sepultar seus mortos, e de repente são transformadas em massa de manobra para uma categoria profissional que já tem demonstrado sua força conseguir seus intentos. A Secretaria de Defesa Social (SDS) disponibilizou caminhões-frigoríficos para ajudar no acondicionamento dos corpos que não param de chegar ao IML. Os corpos, amontoados uns sobre os outros, mostram o quanto autoridades e legistas respeitam os sagrados direitos - legais e culturais do nosso povo. Mas de uma gente humilde! Não há entre os cadáveres retidos nenhum que tenha sido um figuração em vida. Não se encontra entre esses cadáveres nenhum que tenha sido deputado, juiz, médico, governador, prefeito ou parentes de qualquer um dessas categorias. Só gente humilde, que não tem recursos para pagar plano saúde, cooperativas médicas ou se beneficiar de um acompanhamento médico particular que lhe conferiria automaticamente um atestado de óbito e isentaria a família desse vexame por que vem passando gente podre de nossa terra.

Aqui, principalmente aqui, se revela a falácia da igualdade de direitos entre os cidadãos. Porque, esses que depois de mortos estão sujeitos aos caprichos corporativos de uma categoria que jogou no lixo seu diploma e faz pouco caso do juramento feito sob o espírito de Hipócrates para defender a vida. Verdade, os cidadãos de classe inferior ali expostos estão mortos! E a sociedade conformada, passiva e acovardada acaba se contentando em usar máscaras para não sentir os odores pútrefos emanados do chorume que escorre como se lixo fosse dos corpos em decomposição dos miseráveis.

NA: a greve dos legista já terminou, mas o CREMEPE informa que a "normalização" das atividades do IML só começa na próxima 2ª-feira, após nova vistoia. Quer dizer, masi sofrimento para quem tem mortos a enterrar. Este fato, pela sua enorme carga emotiva e para que a sociedade vigilante não permita que se repita mais uma vez, deverá ser registrado nas páginas da história.

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