GATA, CARENTE E MANHOSA
Emílio J. Moura
-Tenho
uma pilha de papéis diversos espalhados diante de mim sobre minha mesa de
trabalho. Tenho que separá-los, classificá-los, arquivá-los. Na verdade, estou
perdido. Já não sei o que é que nessa montanha de notas, ofícios, relatórios,
os cambaus! Estou estressado!
-Então, porque você não larga tudo
isso ai e vem para minha casa ficar comigo esta tarde? Seríamos companhias
agradáveis um para o outro. Eu ouviria seu filosofar de homem experiente, e de
minha parte tocaria violão e cantaria doces canções para você!
Não nos víamos há uns dez anos. Conhecemo-nos
na escola de administração. Ela dominava a área de organização e método. E se
sentia encantava com minha experiência em tabulação de doenças e procedimentos
cirúrgicos. Depois da formatura, nossos caminhos se modificaram e alguma coisa
estranha se intercalou entre nós dois, e nos separou. Naquele começo de tarde
eu havia retornado do breve almoço e recomeçado a arrumação daquela montanha de
documentos que chegavam à minha mesa, às enxurradas, todo fim de mês. O
telefone sobre meu birô toca. Atendo, e ouço sua voz. Levei algum tempo para
assimilar aquele timbre de voz. Era de alguém que eu conhecia. Mas quem? Minha
demora em falar a fez avivar minha memória:
“Então você já me esqueceu? Sequer se
lembra da minha voz?”
“Débora!!! Quanto tempo! Por onde tu
andas, mulher?” Ela riu, satisfeita com o enunciado do seu nome.
Conversamos brevemente sobre
amenidades. Lembramos os bons momentos que passamos juntos durante aquele
semestre em que nos encontramos; os almoços no hotelzinho de pé-de-escada, os
encontros da turma no restaurante do Gregório às sextas-feiras. Essas coisas.
Uma pane na central telefônica do hospital abortou nossa conversa. E eu
continuei lidando com os meus papéis. Até me saturar, largar tudo aquilo em
cima da mesa e ir para casa. Cheguei extenuado pelo trabalho e também pela
inclemência do Sol que ardia lá fora. Mais cansaço mental do que físico. Para
complicar, tinha certeza que o dia seguinte seria muito pior. Passei o muro,
entrei como sempre pela porta lateral e fui direto para o terraço. Estava só em
casa. Deitei-me sobre o chão do terraço. De sapato e tudo. A sombra projetada
pela densa copa do jambeiro que existia no quintal e o friozinho do tanque
d`água bem abaixo do piso propiciavam-me aquele clima agradável, me aliviando o
sofrimento. Já quase cochilava quando o telefone tocou. Era ela.
-Você interrompeu nossa conversa...
-Não, a linha caiu, houve pane no
sistema telefônico interno.
-Melhor assim!
Estranhei aquele contato. Ela me
perguntou sobre os papéis, e eu respondi que aquilo ali era minha rotina de
todo fim de mês. Débora perguntou por “ela”.”Se estava em casa”. Não, não
estava, informei pra ela. Àquela hora estaria na metade do seu expediente de
trabalho. Perguntou pelos meus filhos. Vão bem, respondi. O menor tem cinco
anos, e está com a mãe: tem consulta hoje.
-Você tem um filho com cinco anos?
indagou como que espantada com a informação recebida. E logo arrematou: “é
filho dela?”
-Claro! Afinal, ela é minha esposa...
-Ela te enfeitiçou!
-Mas “ela” tem nome e sobrenome; você
lembra, não é?
Débora não responde. Ouço através da
linha sua respiração ofegante. Antes da conversa tomar outro rumo, lembrei de
perguntar: “Como você achou o número do meu telefone?” De fato, nunca havia
fornecido esse número para nenhum colega de turma. E ela não se fez de rogada:
“Liguei para a diretoria do hospital, que em contato com uma funcionária do
SAME chamada Nilza forneceu-me o número”. Depois de algumas trocas de idéias,
tudo recomeçou.
-Mas você está fazendo o que
sozinho em casa a essa hora? Renovo meu convite para você vir ao meu
apartamento e passarmos junto esse resto de tarde e começo de noite. Afinal,
ela só chega em casa lá para as onze horas da noite, não é mesmo? O Juninho não
incomoda; ele é um bom menino e está sempre entretido com seus brinquedos”. Juninho era o filho de
Débora. Soube dele anos depois do curso em encontro com um ex-colega de turma. Num momento da conversa
ao telefone, quando relembrávamos momentos divertidos durante as aulas,
principalmente a de psicologia da professora de perfil jamaicano, Débora
reclamou mais atenção de minha parte.
Lembrou que era ela a colega mais afeita a mim, e que eu simplesmente a
abandonei. E aproveitou mais uma vez a oportunidade para me convidar a ir ao
seu apartamento naquela tarde.
Débora não era bonita, mas era
agradável. Sempre morou só, embora sua origem de classe média alta. Bem mais
moça do que eu, uns oito anos menos. Exalava um odor de mulher que sabe se
cuidar. Moça educada, de finíssimo trato. Branca, dessas que o povo chama de
“enferrujada”, se equilibrava em cima de longos saltos. Cabelos castanhos,
naturalmente sedosos. Suas vestes eram sempre de tecidos finos; bem cortados e
de costura esmerada. Não sei se ela mesma costurava suas roupas, pois sempre
demonstrou habilidades quando desenhava modelitos para as colegas de turma que
a abordavam a respeito de suas vestes. Nunca casou; nem namorado tinha. Sempre
morou só, embora tenha conseguido o maior sonho de sua vida: ter um filho. Por
pouco escapei de ter sido o pai. Mas naquela tarde Débora deixava transparecer
pelo telefone seu estado de carência emotiva. E insistia para que eu fosse ao
seu apartamento ali na Boa Vista. Claro que eu não estava disposto a atendê-la
naquele pleito. E entre outras amorosidades, expliquei porque não iria:
-Largado como estou, chego em sua
casa; ficamos sozinhos num ambiente fechado; esse seu perfume discreto que
atrai como imã; esse seu jeito de gata e essa sua vozinha manhosa acabam me
tirando do sério. É melhor não!
(Escrito na primavera de 1990
e digitado em 30.08.2008).
Do livro Perfis Femininos que
conheci - 1992
m 30.08.2008