NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012


           

                                 GATA, CARENTE E MANHOSA

                                       Emílio J. Moura



             -Tenho uma pilha de papéis diversos espalhados diante de mim sobre minha mesa de trabalho. Tenho que separá-los, classificá-los, arquivá-los. Na verdade, estou perdido. Já não sei o que é que nessa montanha de notas, ofícios, relatórios, os cambaus! Estou estressado!

            -Então, porque você não larga tudo isso ai e vem para minha casa ficar comigo esta tarde? Seríamos companhias agradáveis um para o outro. Eu ouviria seu filosofar de homem experiente, e de minha parte tocaria violão e cantaria doces canções para você!

           Não nos víamos há uns dez anos. Conhecemo-nos na escola de administração. Ela dominava a área de organização e método. E se sentia encantava com minha experiência em tabulação de doenças e procedimentos cirúrgicos. Depois da formatura, nossos caminhos se modificaram e alguma coisa estranha se intercalou entre nós dois, e nos separou. Naquele começo de tarde eu havia retornado do breve almoço e recomeçado a arrumação daquela montanha de documentos que chegavam à minha mesa, às enxurradas, todo fim de mês. O telefone sobre meu birô toca. Atendo, e ouço sua voz. Levei algum tempo para assimilar aquele timbre de voz. Era de alguém que eu conhecia. Mas quem? Minha demora em falar a fez avivar minha memória:

         “Então você já me esqueceu? Sequer se lembra da minha voz?”

        “Débora!!! Quanto tempo! Por onde tu andas, mulher?” Ela riu, satisfeita com o enunciado do seu nome.

         Conversamos brevemente sobre amenidades. Lembramos os bons momentos que passamos juntos durante aquele semestre em que nos encontramos; os almoços no hotelzinho de pé-de-escada, os encontros da turma no restaurante do Gregório às sextas-feiras. Essas coisas. Uma pane na central telefônica do hospital abortou nossa conversa. E eu continuei lidando com os meus papéis. Até me saturar, largar tudo aquilo em cima da mesa e ir para casa. Cheguei extenuado pelo trabalho e também pela inclemência do Sol que ardia lá fora. Mais cansaço mental do que físico. Para complicar, tinha certeza que o dia seguinte seria muito pior. Passei o muro, entrei como sempre pela porta lateral e fui direto para o terraço. Estava só em casa. Deitei-me sobre o chão do terraço. De sapato e tudo. A sombra projetada pela densa copa do jambeiro que existia no quintal e o friozinho do tanque d`água bem abaixo do piso propiciavam-me aquele clima agradável, me aliviando o sofrimento. Já quase cochilava quando o telefone tocou. Era ela.

        -Você interrompeu nossa conversa...

        -Não, a linha caiu, houve pane no sistema telefônico interno.

        -Melhor assim!

        Estranhei aquele contato. Ela me perguntou sobre os papéis, e eu respondi que aquilo ali era minha rotina de todo fim de mês. Débora perguntou por “ela”.”Se estava em casa”. Não, não estava, informei pra ela. Àquela hora estaria na metade do seu expediente de trabalho. Perguntou pelos meus filhos. Vão bem, respondi. O menor tem cinco anos, e está com a mãe: tem consulta hoje.

        -Você tem um filho com cinco anos? indagou como que espantada com a informação recebida. E logo arrematou: “é filho dela?”

        -Claro! Afinal, ela é minha esposa...

        -Ela te enfeitiçou!

       -Mas “ela” tem nome e sobrenome; você lembra, não é?

       Débora não responde. Ouço através da linha sua respiração ofegante. Antes da conversa tomar outro rumo, lembrei de perguntar: “Como você achou o número do meu telefone?” De fato, nunca havia fornecido esse número para nenhum colega de turma. E ela não se fez de rogada: “Liguei para a diretoria do hospital, que em contato com uma funcionária do SAME chamada Nilza forneceu-me o número”. Depois de algumas trocas de idéias, tudo recomeçou.

                  -Mas você está fazendo o que sozinho em casa a essa hora? Renovo meu convite para você vir ao meu apartamento e passarmos junto esse resto de tarde e começo de noite. Afinal, ela só chega em casa lá para as onze horas da noite, não é mesmo? O Juninho não incomoda; ele é um bom menino e está sempre entretido com  seus brinquedos”. Juninho era o filho de Débora. Soube dele anos depois do curso em encontro com  um ex-colega de turma. Num momento da conversa ao telefone, quando relembrávamos momentos divertidos durante as aulas, principalmente a de psicologia da professora de perfil jamaicano, Débora reclamou mais  atenção de minha parte. Lembrou que era ela a colega mais afeita a mim, e que eu simplesmente a abandonei. E aproveitou mais uma vez a oportunidade para me convidar a ir ao seu apartamento naquela tarde.

              Débora não era bonita, mas era agradável. Sempre morou só, embora sua origem de classe média alta. Bem mais moça do que eu, uns oito anos menos. Exalava um odor de mulher que sabe se cuidar. Moça educada, de finíssimo trato. Branca, dessas que o povo chama de “enferrujada”, se equilibrava em cima de longos saltos. Cabelos castanhos, naturalmente sedosos. Suas vestes eram sempre de tecidos finos; bem cortados e de costura esmerada. Não sei se ela mesma costurava suas roupas, pois sempre demonstrou habilidades quando desenhava modelitos para as colegas de turma que a abordavam a respeito de suas vestes. Nunca casou; nem namorado tinha. Sempre morou só, embora tenha conseguido o maior sonho de sua vida: ter um filho. Por pouco escapei de ter sido o pai. Mas naquela tarde Débora deixava transparecer pelo telefone seu estado de carência emotiva. E insistia para que eu fosse ao seu apartamento ali na Boa Vista. Claro que eu não estava disposto a atendê-la naquele pleito. E entre outras amorosidades, expliquei porque não iria:

            -Largado como estou, chego em sua casa; ficamos sozinhos num ambiente fechado; esse seu perfume discreto que atrai como imã; esse seu jeito de gata e essa sua vozinha manhosa acabam me tirando do sério. É melhor não!



                                                

                                                      (Escrito na primavera de 1990 e digitado em 30.08.2008).

                                                      Do livro Perfis Femininos que conheci - 1992





































m 30.08.2008

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