NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013


  OITAVAS DA HORA FINAL
         Emílio J. Moura
Quem se julga sábio, potente, corajoso;
Mas nunca vê a trava no olho
Cravada a denunciar como
É pequeno, rude,  frágil
Incapaz de entender
Da vida o valor;
Eu sei
Sim

 Tudo
 Tem real valor;
A riqueza, a penúria;
 O fogo, a floresta,
Aquele riacho no vale,
 Aquela mosca zunindo
No teu ouvido sem piedade
E esse enfado que me arrebenta.

Claro que aquele que sabe dialogar
Fica sim cada vez mais perto
Do prumo; régua, do amor;
Do tênue equilíbrio,
Pois é  no ato
De se dá,
 Dá-se
A paz.

Paz!
Que é paz?
Senão o vento a zunir
Levando a semente certa
Para o campo fértil e  úmido?
Ou carregando a ermo o alado pólen?
A chuva fina umedece o campo e resfria o ar,
Hidrata os seres, transporta o humo e renova a vida.

Ouro, marfim; beleza, ciúme; o ter sem de fato ser.
Vida curta e ao mesmo tempo triste e  longa,
O momento fugaz, num olhar discreto,
O beijo ardente ou o tapa em revide.
O odor da rosa, a dor de dente;
Os pruridos da alma, a fé;
A jura de eterno amor
Finda num instante.

A família se fortalece no amor e na saudade
De ente que partiu para não mais voltar;
A sombra escura, o clarão da lua,
O gemido alegre do parto,
O choro  da criança;
A vida se renova.
O galo canta;
Nasce o dia.

Fartura!
Colhe-se milho;
Há festa no campo!
A criança chora sem pão,
O sol queima a terra e as pessoas
Sem rumo saem a vaguearem nas ruas.
A cheia ruge brava, perde-se toda a colheita
E os retirantes são anônimos pedintes em suas terras.

Água, sol, sementes; arados, braços, enxadas, pessoas!
O canavial como um longo  tapete verde
A se estender pelas encostas e vales;
A mãe agoniza no frio lenho
A criança sofre faminta,
O pai, doído, chora:
Dois óbitos,
Enfim.

                                                                                                                                05.05.2005


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