OITAVAS DA HORA FINAL
Emílio J. Moura
Quem se julga sábio, potente, corajoso;
Mas nunca vê a trava no olho
Cravada a denunciar como
É pequeno, rude, frágil
Incapaz de entender
Da vida o valor;
Eu sei
Sim
Tudo
Tem real valor;
A riqueza, a penúria;
O fogo, a floresta,
Aquele riacho no vale,
Aquela mosca zunindo
No teu ouvido sem piedade
E esse enfado que me arrebenta.
Claro que aquele que sabe
dialogar
Fica sim cada vez mais perto
Do prumo; régua, do amor;
Do tênue equilíbrio,
Pois é no ato
De se dá,
Dá-se
A paz.
Paz!
Que é paz?
Senão o vento a zunir
Levando a semente certa
Para o campo fértil e úmido?
Ou carregando a ermo o alado pólen?
A chuva fina umedece o campo e
resfria o ar,
Hidrata os seres, transporta o
humo e renova a vida.
Ouro, marfim; beleza, ciúme; o
ter sem de fato ser.
Vida curta e ao mesmo tempo
triste e longa,
O momento fugaz, num olhar
discreto,
O beijo ardente ou o tapa em
revide.
O odor da rosa, a dor de dente;
Os pruridos da alma, a fé;
A jura de eterno amor
Finda num instante.
A família se fortalece no amor e
na saudade
De ente que partiu para não mais
voltar;
A sombra escura, o clarão da lua,
O gemido alegre do parto,
O choro da criança;
A vida se renova.
O galo canta;
Nasce o dia.
Fartura!
Colhe-se milho;
Há festa no campo!
A criança chora sem pão,
O sol queima a terra e as pessoas
Sem rumo saem a vaguearem nas
ruas.
A cheia ruge brava, perde-se toda
a colheita
E os retirantes são anônimos
pedintes em suas terras.
Água, sol, sementes; arados,
braços, enxadas, pessoas!
O canavial como um longo tapete verde
A se estender pelas encostas e
vales;
A mãe agoniza no frio lenho
A criança sofre faminta,
O pai, doído, chora:
Dois óbitos,
Enfim.
05.05.2005
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