NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;
NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;
EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.
NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;
EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
MASSELA - A ANALOGIA
MASSELA - A ANALOGIA
Emílio J. Moura
Massela - assim mesmo, sem erre e com esses - passava longas horas diante do espelho. Moça sensível que adorava flores e levava sempre ao colo uma gata siamesa. Mas, apaixonada por si mesma, não se cansava de admirar a própria beleza. Começava a se pentear após o demorado banho matinal com sabonete hidratante de essências variadas. Escovava lentamente as longas e densas madeixas, alisando-as com as mãos finas de uma fada; sutilmente, de cima para baixo. Sua fixação não estava apenas nos cabelos. Ela reverenciava todo o seu corpo marrom de linhas caprichosamente simétricas. Como se tivesse sido esculpido pelas mãos hábeis e firmes de um artesão atento.
Despida diante do espelho longo na vertical, fixado à parede do seu banheiro, conferia cada detalhe do corpo lindo. Começava alisando suavemente os seios quase em botão como se estivesse entrando na adolescência; usava as duas mãos para sentir na ponta dos dedos o detalhe dos bicos escuros dos mamilos naturalmente intumescidos. Depois, escorria as delicadas mãos busto abaixo. Palpava a cintura delgada como se a mensurasse na sua autopaixão. Tocava o umbigo e ia escorregando a mão até às coxas. Afastava-se um pouco do espelho para apreciar as pernas roliças e simétricas roçando uma na outra. Afastava-se mais um pouco, e curtia orgulhosa a sua silhueta sinuosa e harmônica, bela e estonteante. Não esquecia de olhar seus peszinhos de unhas diminutas, e, tais quais as das mãos, quase só visualizadas pelo toque lilás do esmalte. Os dedos, perfeitos, bem posicionados dentro do todo.
Agora, já mais perto do espelho, Massela acariciava seus braços longos e uniformes; os antebraços e as mãos lisas como seda. Voltava a vista para o busto, e finas listras brancas subindo dos seios e descendo pelas costas contrastavam com a cútis jambo da garota denunciando exposição aos raios solares na praia. Volvia o olhar para o rosto, e com uma pontinha da língua entre os dentes se deleitava com seu nariz regiamente em alinho com a boca de lábios finos e delicados. Os olhos, azuis e brilhantes, pequenos e ímpares movendo-se dentro de uma órbita protegida por cílios naturalmente cintilantes se assemelhavam aos da sua gatinha de estimação. As delicadas orelhas quase se perdiam em meio aos cabelos finos e lisos concentrados numa porção caída sobre o lado esquerdo do busto. Os traços uniformes do corpo da moça se definiam nos seus cincoenta e seis quilos e um metro e cincoenta e seis centímetros de altura. Nos seus vinte anos, nada sobrava. Nada faltava.
Massela era aluna de uma escola filantrópica num arrabalde da cidade. Freqüentava um curso de preparação para os exames supletivos do então ensino secundário do segundo ciclo (artigo 99). Moça de origem humilde, tentava um certificado para se inserir no mercado de trabalho. Já havia feito o curso de datilografia e o certificado a habilitaria a um emprego de melhor remuneração. Vestia-se bem, dentro das limitadas condições financeiras da família. Comportada e de mente centrada, não tinha esses hábitos já na época tidos por “moderninhos”. A família dela era ajustada, com os pais pacientes e conselheiros, vigilantes e severos. Sua única irmã tinha menos idade e... era adotada. Esta não confessava, mas nutria uma pontinha de inveja de Massela. Também era bonita. Mas ficava muitos anos-luz aquém da irmã.
Aprovada nos exames supletivos e sem maiores problemas empregada no escritório de uma famosa loja de material de pesca da cidade, Massela passou a conhecer um mundo diferente daquele do seu bairro. A esposa do patrão que também dava expediente no escritório, controlando a contabilidade, gostava muito da moça e a levava para as festas que freqüentava. Eram festas comportadas, sem muita bebida, e fumaça de cigarros só do lado de fora da sala de danças. O que importava era a emoção do convívio com os amigos. Conectada ao mundo social da classe média, Massela elegeu a dança sua arte de expressão corporal. Mas preferia dançar solta, sem formar um par. Logo arranjou um namorado, rapaz educado, estudante universitário; bem intencionado.
Mas a mente de Massela não se desgrudava da auto-admiração. Sexo era coisa que não visitava sua cabeçinha de moça bem educada. O namorado percebeu que Massela não estava muito interessada num casamento – objetivo maior de uma moça dessa época – e desfez o namoro. A menina nem se abalou. E continuava sem namorado, apesar do assédio da rapaziada das rodas sociais a que ela comparecia acompanhando a patroa. Agora bem vestida, no meio daquela gente bonita e perfumada, Massela se via espelhada na juventude alegre e divertida das noites festivas. Mas, não enxergava ninguém na sua frente que fosse tão bonita quanto ela. Gostava da companhia daqueles amigos, só não via neles nenhum que se equiparasse a ela em termos de beleza. A idéia do belo em Massela não estava associada à noção da utilidade real da beleza.
Com o passar do tempo, Massela ia cada vez mais se empolgando com sua própria imagem. Os amigos já iam se afastando, seus espaços sociais diminuindo. Como numa dinâmica que foge a qualquer controle, Massela não percebia o abismo em que estava caindo. Num ritmo quase frenético, dançava cada vez mais. Agora, desgarrada dos amigos, movimentava seu corpo em passos cada vez mais alucinantes. Exercitava sua necessidade de dançar nos salões já quase vazios dos finais de festas; na sala ou em qualquer cômodo da casa da família. Subia nos ônibus já agitando o corpinho perfeito. Aos poucos ia se desligando do mundo real em que vivia e entrando num mundo idealizado por ela como o lugar que a merecia. Agora, já sem emprego, começava a dançar pelas ruas ao compasso de qualquer som que ouvia.
Internada num sanatório para doentes mentais, Massela fazia os pacientes se mexerem ao som das músicas tocadas através de um rádio instalado na enfermaria. Sem responder a qualquer tratamento prescrito pelos médicos, teve a alta recomendada. Não se adaptando mais ao convívio da família, foi levada para um sítio em interior distante de propriedade de parentes. Nada nem ninguém a segurava. Correndo pelos campos floridos em sua volta, sequer parava para admirar uma das muitas flores de toque sutil abundantes ali. Ignorava os animais diversos e as plantas multicoloridas. Nem cachoeiras nem lagos; nem matas nem rios. Nada daquilo tinha significado para ela. Ela era a única coisa realmente bela que existia sobre a face da Terra. Exposta ao calor do sol a pino ou às chuvas torrenciais daqueles últimos dias, a moça corria montes e prados, vales e matas; sempre dançando. Aos farrapos e desfigurada, depois de alguns dias ausente da casa dos parentes, Massela foi dada como desaparecida. E desapareceu para sempre. As circunstâncias desse sumiço da garota tresloucada nunca foram devidamente esclarecidas. A única coisa que ficou na memória das pessoas que a conheceram foi que, apaixonada por si mesma e apartada da realidade existencial, Massela se afogou com sua beleza no grande espelho d’água da vida.
18.01.2008
-última página do livro Tipos e tópicos – perfis femininos que conheci (coletânea de contos ,editada e ainda não publicada)
(republicado a pedido)
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