NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

domingo, 12 de setembro de 2010

                                                 AS CACHORRADAS DE DONA DIKA


                                                                   Emílio J. Moura




Dona Mora chegou correndo à sala de sua casa. Leocádio lia sossegado seu jornal de domingo. A mulher estava pálida, suando frio, soprando feito papa-vento. Indagada pelo marido, ela apenas respondeu:

-As cachorradas de dona Dika!

Vidinha sem graça aquela na parte alta da vila onde morava o casal mais respeitado dali. Também pudera! Dona Mora gostava de um rala-bucho, o que era reprovado por seu Leocádio. O velho – na verdade, um homem de meia idade – gostava mesmo era de uma pelada. Mas a esposa o proibia de sair de casa nas manhãs domingueiras. Esse era um dia exclusivo para o convívio em família. Só que a mulher não pára em casa. Trocando receitas com as vizinhas, dona Dika mal tinha tempo de preparar a feijoada que caia bem no gosto do marido. Os filhos se mandavam para a praia logo cedo, embora voltassem para casa na hora da xepa, sempre lá para uma hora da tarde dos domingos. Marquinhos,18 anos, era o terror das garotas do bairro. Todas, e cada uma, desejavam o cara. Mas o moço era sacana demais para uma moça decente permitir sua aproximação. E ele ia se virando com as meninas de outros lugares, até que estas chegassem a conhecer quem ele era de verdade. Já Míria – Miloca, na intimidade – era mais pacata. Só um pouco. Aos 21 anos, namoradeira estava ali. Fingindo ser uma moça pudica, Miloca não ficava atrás das diabruras de Marquinho. Ao seu modo, metia medo aos rapazes com quem namorava, depois de algum tempo de relacionamento Que será que ela fazia! Mas deixemos a garotada prá lá.

Seu Leocádio, sentado em sua espreguiçadeira, sozinho lá num canto de sala da casa, não tinha outra opção. Lia o jornal como se degustasse um bom prato. De vez em quando tomava uma caninha, para espantar o sono. E nessa pisada acabava ingerindo um tubo inteiro de pinga toda manhã de domingo. À tarde iria ao futebol na liga. Iria! A pinga lhe subira ao quengo, e ele acabava adormecendo depois da feijoada, dormindo ali mesmo na espreguiçadeira, embora a algazarra do casal de filhos contando aos amigos reunidos na sala suas peripécias amorosas na praia. Ferreiro, e dos bons seu Leocádio era um homem comportado. Na oficina que mantinha em rua movimentada da cidade, fazia ouvido de mercador para as indiretas ditas por seus trabalhares a respeito dos seus filhos. Principalmente, a Miloca. Naquele domingo, 7 de setembro, o bairro ficara vazio. Foi todo mundo à praia; ou à parada militar. Quase todo mundo. Dona Mora e o marido, dona Dika e seu esposo seu Dega da mercearia pareciam os únicos presentes no bairro. Pensando que o barraqueiro fechara o estabelecimento e fora também à praia, dona Dika tratou de ir comprar cerveja para o marido, já de quengo cheio da suada que vinha tomando desde cedo. Exatamente quando dona Mora foi conversar com a vizinha. Como de costume, entrou pela porta dos fundos, passou pelo oitão esquerdo onde dona Dika mantinha meio presos os cachorros que criava. Ao entrar, teve sua atenção voltada para o papagaio que dizia o de sempre: muitos cachorros, cachorradas. E sem perceber, esbarrou de frente com seu Deda, que sob os efeitos dos quequéus a agarrou pela cintura, Quando já ia beijando o pescoço da amiga de sua esposa, dona Mora escapa dos seus braços e corre para casa. Passou correndo pelo corredor perto da casa dos cachorros que começaram a latir. Entrou em casa feito uma bala, e pôs-se ao lado de Leocádio, que percebeu aquela danação da mulher.



02.05.2009

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