NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

                                                  A FILHA DO CORONEL


                                                          Emílio J. Moura



Letícia aparecia de vez enquanto no engenho. Moça de belo perfil físico, tinha uma origem algo nebulosa. Sempre trajando roupas finas, de modos delicados e impressionando com sua linguagem esmerada as meninas do lugar. O velho engenho de cana, com um rico plantel bovino, mais parecia uma fazenda aos olhos de quem passava pela esburacada estrada de barro lá na frente. O dono do engenho era tio de Letícia, e demonstrava prazer em a moça ir passar as férias em sua casa. Algumas vezes, no final do ano, Letícia não aparecia no engenho. Segundo o capitão Tancredo, a moça, nessas ocasiões, iria para a fazenda Boa Esperança, no agreste de Alagoas. O fazendeiro, Coronel Virgílio, era um desses homens sagazes, astutos. Chefe político do município, dono das principais lojas do centro da cidade e principal fornecedor de gado de abate para toda aquela redondeza, o coronel tinha lá seus apetites estranhos. Gostava de caçar, junto com outros fazendeiros e senhores de engenho – todos seus subordinados políticos -, e em sua mesa farta não faltavam carnes de pacas, veados, porcos-do-mato e até jacaré. Mas sua principal excentricidade estava na sua estirpe violenta. Sem qualquer pudor, o coronel mandava matar quem se atrevesse a ostensivamente contrariá-lo politicamente nos seus domínios eleitorais. Economicamente, não havia naquele município, nem num raio que incluía cinco ou seis outras cidades, qualquer pessoa que pudesse concorrer com ele.

Difícil naquela época encontrar um desses latifundiários que não tivesse um ou mais filhos fora do casamento. Como viviam em permanente movimentação, se deslocando a grandes distâncias para negociar bois ou outros produtos de suas fazendas, não lhes faltavam motivos para justificar suas escapadelas amorosas. Essa era uma cultura arraigada na sociedade nordestina dos anos trinta do Século XX. Não que o costume tenha desaparecido nos dias atuais, mas arrefeceu e só é detectado em situações localizadas.

Pedro do Linho, mascate famoso por toda aquela área do semi-árido pernambucano, apareceu um dia na fazenda no coronel. Já foi um atrevimento ir lá nos domínios do coronel vender alguma coisa. Exibindo luxuosos tapetes estendidos sobre o dorso do cavalo, Pedro do Linho atraiu a curiosidade de dona Genoveva; quando o coronel chegou para o almoço, já estranhando aquele quarteto de cavalos carregando mercadorias que ele vendia em suas lojas da cidade postados em frente de sua casa, foi entrando enfezado. Mas a mulher o acalmou com um simples olhar. A coisa poderia tomar um rumo diferente, quando Pedro do Linho, explanado para o fazendeiro suas andanças por terras sem fim indagou da fina senhora sobre sua filha. Filha? Que filha? Não tenho filhos!, exclamou a nobre senhora. Um olhar do coronel sobre o mascate o fez entender a situação, e ele que conhecia a fama do coronel tentou primeiro salvar a própria pele e depois dissipar qualquer dúvida a respeito de filhos do casal anfitrião. –Ah! Doideira minha, quem tem uma filha é o coronel da fazenda Angico, lá nos cafundós de Pernambuco. E querendo ser gentil: -Desculpe, digníssima senhora, o transtorno que eu trouxe aqui. O coronel não disse nada, mas sorria entre os dentes, feliz pela saída inteligente do mascate. E quando este já ia longe, em vez da costumeira emboscada e limpeza de arquivo, o vendedor itinerante recebia a visita do coronel, agradecendo-lhe o manejo daquela situação inusitada na casa grande. Entregou um envelope com dinheiro para ser levado à sua filha e pagou por uns tecidos finos que o mascate entregaria a moça quando chegasse à cidade onde ela estudava. E foi ai que ele ficou sabendo que quando Letícia não ia passar férias no engenho do capitão Tancredo, estava em sua companhia nas cidades históricas da Bahia. Naturalmente, acompanhados de Anita, uma marchand de Salvador, mãe da garota.

06.01.2010

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