NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

domingo, 10 de fevereiro de 2013


   A ESCOLA DE ONTEM E A ESCOLA DE HOJE
  Na minha infância, durante o curso primário, as aulas eram um atrativo para a maioria dos alunos.  Alguns, que não conseguiam acompanhar o ritmo dos trabalhos escolares, iam deixando de estudar.  No fim do ciclo, quatro anos depois, restava pouco mais de um terço  da turma chegando às provas finais. Um excesso de zelo pela aparência do aluno – e algo exagerado que beirava as raias do preconceito,  tornava a escola uma instituição excludente. Difícil um aluno negro na sala de aula, mesmo nos bairros mais periféricos onde os negros predominavam. Os alunos de pele mais escura eram tão exigidos em termos de aprendizado e asseio corporal que acabavam deixando a escola. O médico - que visitava a escola uma vez por mês, era mais um agente da burguesia preconceituosa do que um funcionário da saúde; recomendava produtos de higiene bucal para os alunos mais escuros dificilmente acessíveis às suas famílias. As alunas de pele mais escura eram minunciosamente examinadas dos pés à cabeça. Uma mancha na cútis ou um piolho solitário no couro cabeludo, e ficavam afastadas por uma semana. Esmalte nas unhas, nem pensar. Se a aluna era de cor escura, um Deus nos acuda! Tirava o esmalte ali mesmo na sala, enquanto as outras eram mandadas para casa para se livrarem “daquele pecado”. E precisavam estar com as unhas limpas e cortadas.
Um aluno bem pobrezinho, mas “comedor” e livros e “desmanchador” de teorias matemáticas (termos usados pela professora), só fazia provas semestrais e finais porque a professora lhe dava de presente um sapato conga, seu único calçado durante o ano todo.  As provas eram realizadas na escola polo do bairro, onde ninguém, usando chinelo ou tamanco (estes, usados pela maioria dos alunos da periferia), penetrava. Dona Maria da Soledade de Sá Leitão, rica moça de espírito bondoso, achava muito estranho aquela orientação de dona Maria Tanchetta, a diretora da escola polo onde eu estudava.
A escola mudou, não reprova mais e é acessível a todas as camadas sociais. Mas, olhando hoje a quantidade de adultos que vivem à margem de uma condição social mais condigna, eu me lembro daquela escola feita para brancos. E observando a qualidade do ensino ministrado hoje na escola pública brasileira, eu temo pelo futuro do meu País, tão necessitado de cidadãos formados em ciências humanas, treinados em tecnologias e portadores de bagagem científica.

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