LEMBRANDO OS BONS
TEMPOS
Bons tempos aqueles! Nos
domingos, a gente ia à matiné lá no cinema do bairro. Ou jogava barra-a-barra
com bola feita de meias lá no areal do
Chupa. Quando a coroa não estava coberta
pelas águas da maré enchente, cabia uma
bola de borracha. Assistia as “séries”
nas noites das segundas ou sextas-feiras. Pipoca, chiclete, às vezes sorvete.
Tinha também o circo - o Garcia ou o
Nerino. E às tardes dominicais eram reservadas para o futebol. Campo do Sport
ou do Náutico. O Santa Cruz não tinha estádio; treinava no campo do Ipiranga ou
da Polícia Militar, ali no Derby. Minha geração não era de frequentar bares.
Cerveja, só nos clubes granfinos; refrigerante, além do Fratelli Vita – acessível
a poucos, só a gengibirra, disponibilizado em garrafinhas retornáveis. Não
esquecendo o raspa-raspa, aquele sorvete feito com gelo rapado e mel cozido comprado
na barraca da praça. Banhos de mar, que podiam ser ali na maré da Cabanga ou na
praia de Boa Viagem; a do Pina fedia muito, por conta da descarga do saneamento
no mar. Ah, tinha o mergulho nas águas
da maré cheia pulando de cima do Cais, hoje, José Estelita. Os botos, fazendo
suas acrobacias, nos enchiam de encanto.
Mas atrás deles vinham os tubarões; chegavam pertinho da gente.
Bons tempos aqueles! De mistura
com os meninos dos pescadores corríamos campos; o chupa ficava pequeno. Iamos
conversar com seu Manoel, o portuga malcheiroso com os dedos cheios de anéis, alguns
de ouro ou prata; pele descascando de tanto grude por falta de banho. O patrício
tinha saudades da terrinha distante, mas vivia abandonado pela rica colônia portuguesa
proprietária das padarias e bares da Cidade. Tão pobre, que todos os seus pertences
cabiam numa sacola feita de lona que levava às costas. Dormia em qualquer
lugar, ao abrigo das chuvas. Comia o que garimpava no lixo; seus “ventos” eram
bem sonoros e os odores fétidos rapidamente se espalhavam num pequeno raio. O
chupa era livre; lá adiante, atrás da sede do esquadrão de infantaria
motorizada no forte das Cinco Pontas, ficavam as oficinas dos trens da empresa
inglesa que explorava o setor. A Rua Imperial, por onde passavam os bondes, era
o único acesso do lado sul ao centro do
Recife.
Bons tempos aqueles! Na praia, no
futebol ou no cinema conversávamos entre amigos. Não existia essa febre de
proteção que nada protege. Não havia essa cultura da homofobia, um sistema
preconceituoso que tem a pretensão de lutar contra a discriminação racial.
Meninos de pele escura ou “tostada”, como eram quase todos os garotos do
bairro, brincávamos sem temer queixas à polícia ou enfrentar processo por
discriminação. Lembro de dois sargentos do exército, ambos negros e boa praça
naquele diálogo interessante. O 1º sargento Antônio Leite conversava com o 3º
sargento Hugo Barbosa. Diante de um impasse, o último dizia para o primeiro: “Sejamos
claros, Leite”. E era essa mesma inocência que presidia as brincadeiras dos
amigos de minha geração. Castro Neves, visualizando o Antônio Ribeiro (Mereia)
lá adiante, ele bem pretinho, chamava: ”Negão, vem pra cá, a turma está aqui”.
E o Carlos Matias, todo produzido no seu habitual banho de loja, ao defender
sua nova indumentária, ouvia do José Nicácio: “É fresco!”. Ninguém brigava naquele grupo, eram todos
amigos de verdade. Hoje, essa espontaneidade está fora de moda. Amigos
estranham amigos; familiares se protegem dos próprios parentes. Ao falar alguma
coisa, as pessoas olham para um lado e para o outro a fim de não serem
surpreendidas por um desses pudicos legais que estão se lixando para moral ou
bons costumes. Tempos difíceis estes!
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