DA SOCIEDADE DECADENTE À SOCIEDADE DEPRIMIDA
Tempos diferentes esses! Apesar
de longo interregno para adaptação, a sociedade ainda cambaleia na assimilação
de tantas transformações. As tradições familiares dos anos trinta foram
atropeladas por ideias liberalizantes inoculadas na sociedade a partir de
meados dos anos quarenta, e avançaram nos anos cincoenta para se consolidarem a partir da década de
sessenta; o festival de Woodstock, mais do que um evento musical, foi a
arrancada para uma nova visão do mundo e dos problemas que o cercam. Os novos
elementos que a partir de eventos como esse passaram a dominar a cena social do
Ocidente traziam uma proposta radical: arquivar tudo que existia em termos de
regras sociais. A sociedade não precisava de regras; as pessoas – células desse
corpo vivo que é a sociedade, precisam tão somente de liberdade. Algo
intrigante estava acontecendo. As moças cortavam os cabelos bem curtinhos e os
rapazes deixam suas cabeleiras vastas e despenteadas dominarem a cena. A
família deixou de ser um núcleo irradiante de confiança e centro de atração e
afago para os membros da linhagem consanguínea. Costumes, crenças, tradições,
tudo passou a ser questionado. Tudo que existia era passado. Urgia uma nova
sociedade. Vivia-se uma era pós-moderna.
Mas o pós-modernismo chegou com
um defeito de fábrica. Não é propriamente um sistema social novo, uma forma
prática como queriam os jovens insatisfeitos de quarenta anos atrás de pensar, produzir, administrar. Tornou-se um
mero conceito, sem perspectivas claras para um futuro melhor para a humanidade.
Mudaram o mundo, chegaram ao poder; destruíram a “sociedade decadente e falsa”,
mas não construíram nada melhor para substituí-la. E deu no que deu. Woodstock
venceu, mas transformou a sociedade ocidental
num gigantesco polvo de mil e um tentáculos, que sem comando nem
controle, a tudo abarca, a todos oprime. Essa sociedade automatizada privilegia
os mais capazes, mais astutos, aquela parcela que teve acesso a uma escola
melhor e viu abrir-se a sua frente oportunidades de trabalho e crescimento. Não
é só no Brasil ou nos países em desenvolvimento que esse fenômeno acontece. A
velha e colonialista Europa – e sua cria, os Estados Unidos, também registra
essa situação impensável na época da produção manufaturada. Essa visão
econômica de redução dos custos de produção levou a sociedade ocidental a criar
máquinas que pagam auxílio-desemprego, bolsa-família e demais benefícios dos
programas sociais dos governos de cada país. Grandes parcelas da humanidade, peso
maior no Ocidente, passaram a viver de esmolas. A decadência de outrora é o
estado depressivo de hoje.
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