A FÉ DE
CADA UM
Todo ano, nesses dias
de fim de inverno e começos de primavera o Brasil inteiro assiste à
manifestações culturais de fundo religioso de vários matizes. Por respeito às crenças da diversidade étniica brasileira, não se deve dizer que se trata de
simples manifestações folclóricas, pois envolvem a fé de vários segmentos da sociedade
brasileira. De Norte a Sul, de Leste a
Oeste, o colorido da nossa gente se faz presente. Hoje, por exemplo, os
seguidores de cultos africanos comemoram o dia de Xangô. Ontem, manifestações
ecléticas ocorridas principalmente na zona da mata norte comemoravam o culto da
Jurema, uma manifestação da cultura indígena da região mesclada com componentes
culturais africanos. Maracatus, caboclinhos, reisados, e outros eventos revivem
a saga dos negros africanos escravizados e trazidos para o Brasil para
trabalharem na lavoura da cana-de-açúcar
de Pernambuco e outros estados do Nordeste. Na Bahia, onde aportou maior número
de escravos para tocarem a lavoura do cacau, o sincretismo religioso é típico;
ali se reúnem quase todas as nações africanas cujos povos foram barbaramente arrancados de suas terras natais
para trabalharem como escravos do outro lado do oceano Atlântico. E para manterem vivas suas tradições se mesclaram com o culto
cristão, impositivo, desumano e dominado pelo poder do dinheiro. No Norte do
Pais, o Carimbó é a principal expressão artística da cultura africana
ancestral.
Não importa que sejamos
católicos, protestantes, espíritas, muçulmanos, budistas, judaicos... O que
importa que é que respeitemos as opções religiosas do semelhante. Claro que não
deverá haver invasão da cultura paralela, ou alheia; cada um mantém sua crença ou sua devoção. Por que essa disputa pela fé,
pelo culto alheio? Há espaço para todos. A sociedade brasileira é diferenciada.
Ela se mantém unida na diversidade de suas manifestações culturais. Esse
sincretismo vai se alargando. Essa performance cultural vai evoluindo, se consolidando. E quando forem
ouvidas as diversas culturas das diferentes regiões brasileiras, ai sim, é que
vai se assistir ao colorido mosaico de uma sociedade mística, livre e unida. Cada
região com sua cultura, cada pessoa ou grupos com sua crença; a fé de cada um.