NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

         LEMBRANÇAS  QUE FAZEM BEM
-O senhor é descendência de japonês?, perguntou-me no primeiro encontro o dono da oficina onde passei a levar meu carro.
-Não, sou de descendência indígena.
Era comum eu  ouvir esse tipo de pergunta ou comentários. Mais "sutil"  foi um criança quando eu estava na fila da carne de um supermercado: "É homem ou mulher?". Cabelos espessos cobrindo as orelhas, sem corte há alguns meses, mas impecavelmente barbeado, bolsa de couro  a tira-colo, sob uma luz diáfana antes de chegar ao balcão, a menina teve dúvidas. Roupas largas, camisa por fora das calças e essa minha cara de índio a confundiu, e crianças  questionam quando não entendem.

 Minha mãe era um bom espécime de índia: morena escura, mais ou menos um metro e oitenta e cinco, braços fortes moldados no trabalho da roça,  cara enrugada,  cabelos longos até à cintura, isso já depois dos noventa anos. E eu herdei suas feições. Isso não me  trouxe nenhum  empecílho de ordem sentimental ou social. Até que galguei posições hierárquicas que simplesmente não faziam parte dos meus sonhos de adolescente. E fui regiamente contemplado por amores diferentes, de níveis sociais e intelectuais  diversos. Pena que eu, em situações diversas, não tenha sabido fazer as opções mais coerentes. Nada a lamentar agora!

Mas o traço mais marcante da minha trajetória sentimental foi quando, ainda adolescendo, uma amiga percebeu que nossa amizade terminaria em namoro. Eu nunca havia pensado nessa hipótese. Ela, que diferente de mim  gostava de festas ruidosas e adorava uma cerveja, numa tarde fria de junho, depois de conversarmos sobre passeios à praia, me disse: "Você é todo programadinho, explicadinho, certinho demais  pro meu gosto". E foi à praia sozinha!


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