LEMBRANÇAS QUE FAZEM BEM
-O senhor é descendência de japonês?, perguntou-me no
primeiro encontro o dono da oficina onde passei a levar meu carro.
-Não, sou de descendência indígena.
Era comum eu ouvir
esse tipo de pergunta ou comentários. Mais "sutil" foi um criança quando eu estava na fila da
carne de um supermercado: "É homem ou mulher?". Cabelos espessos
cobrindo as orelhas, sem corte há alguns meses, mas impecavelmente barbeado,
bolsa de couro a tira-colo, sob uma luz
diáfana antes de chegar ao balcão, a menina teve dúvidas. Roupas largas, camisa
por fora das calças e essa minha cara de índio a confundiu, e crianças questionam quando não entendem.
Minha mãe era
um bom espécime de índia: morena escura, mais ou menos um metro e oitenta e
cinco, braços fortes moldados no trabalho da roça, cara enrugada, cabelos longos até à cintura, isso já depois
dos noventa anos. E eu herdei suas feições. Isso não me trouxe nenhum empecílho de ordem sentimental ou social. Até
que galguei posições hierárquicas que simplesmente não faziam parte dos meus
sonhos de adolescente. E fui regiamente contemplado por amores diferentes, de
níveis sociais e intelectuais diversos.
Pena que eu, em situações diversas, não tenha sabido fazer as opções mais
coerentes. Nada a lamentar agora!
Mas o traço mais marcante da minha trajetória sentimental foi
quando, ainda adolescendo, uma amiga percebeu que nossa amizade terminaria em
namoro. Eu nunca havia pensado nessa hipótese. Ela, que diferente de mim gostava de festas ruidosas e adorava uma
cerveja, numa tarde fria de junho, depois de conversarmos sobre passeios à
praia, me disse: "Você é todo programadinho, explicadinho, certinho demais
pro meu gosto". E foi à praia
sozinha!
Nenhum comentário:
Postar um comentário