CONTAMINAÇÃO
Emílio J. Moura
O jornal
estampa em manchete, e a informação chega a muitos lugares distantes. O rádio
informa, levando a notícia a locais aonde outros meios de comunicação não
chegam. A televisão transmite ao vivo,
em tempo real; são imagens e sons que retratam uma realidade triste e cruel da
sociedade humana. O clube carnavalesco da Igreja Católica desfila na rua
principal do bairro. O bloco dos evangélicos se exibe na principal avenida da
capital. Os católicos, fantasiados de tipos da época e mais descontraídos,
cantam marchinhas de carnaval, em meio às quais se ouvem louvações a Deus. Já
os evangélicos, usando camisetas coloridas e chapéus protegendo-os do sol,
cantam hinos de louvor, aos gritos de glória
a Jesus. Outros segmentos religiosos se omitem a respeito da questão.
O que aconteceu
com a mensagem do Cristo? Por certo que participar de festas não denigre
ninguém. Desde que quem participa não se deixe envenenar pelas mazelas que
estão incrustadas nas festas da sociedade de hoje. Mas o que é mesmo que está
por trás dessas manifestações dos religiosos? Se fosse uma coisa boa, eles -
religiosos de todos os matizes – se manifestariam em festas dentro dos próprios
templos. Mas a “igreja não é lugar para manifestações pagãs”. Então, as festas
da quais os religiosos participam são pagãs? E aí, como entender essa questão?
A missão do convertido é levar seu
testemunho de fé às mais diferentes camadas da sociedade. Desde que essas
camadas queiram ouvir esse testemunho. E somente depois que o convertido
entenda o significado da conversão. Isto é, tornar-se uma pessoa melhor. Adotar
um rumo, um estilo de vida compatível com a mensagem que quer transmitir. Se
não for assim, nada disso terá valor. Serão atos ineficazes, atitudes vazias.
Em qualquer religião!
É isso por acaso
o que acontece na realidade existencial dessas pessoas? Com certeza, não. Então alguma coisa está
errada. Estar-se confundindo ação libertadora com atitudes banais. Tomando-se
alhos por bugalhos. A banalização do ato de fé é uma confissão da falta de fé.
E para demonstrar ter fé é bastante viver de acordo com os postulados da fé. Só
isso! Ora, a presença do crente de matriz cristã num determinado ambiente
significa que haverá transformação desse ambiente. Sem controvérsias. Se isso
não ocorre, o que está acontecendo é uma cooptação do crente pelo ambiente que
ele deveria transformar. Há uma contaminação. Não se diz aqui que o mal está
contaminando o bem. Até porque, neste contexto, fica realmente difícil dizer de
que lado está o bem! Há, sim, uma mistura de valores, contribuindo para
complicar ainda mais a cabeça das pessoas.
Então é ruim o
religioso participar de uma festa carnavalesca, por exemplo? Pode ser que sim, pode ser que não. Como
assim? Ora, nunca é demais repetir o que se disse acima: o papel do ser
religioso é transformar o ambiente malsão que se instalou nesse tipo de
animação. Esse trabalho transformador deve ser entendido como um processo que
tem começo, meio e fim. O começo é a criação de entidades paralelas às
organizações carnavalescas; o meio é a participação ativa dos religiosos nessas
atividades de lazer; atuação discreta, dando conotação edificante ao cantar e
aos gestos, sem discriminar ( ou satanizar ) o outro lado; o fim, é o
estabelecimento de uma convivência onde as pessoas se sintam bem, possam
extravasar suas alegrias. Afinal, é saudável movimentar o corpo para que ele
tenha melhor desempenho físiológico, mental, psicológico e possa render mais do
ponto de vista espiritual. Contradição? Não, afirmação. A participação do
crente em atividades festivas é sadia, desde que nessas atividades não estejam
presentes bebidas, fumo e sexo. Isto é, não estejam sendo utilizadas como
instrumentos do capitalismo ateu e devastador. 24.01.2008
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