O COLÉGIO ESTADUAL
Hilton Sette, Amaro Quintas,
Lucilo Varejão Filho, Eládio Ramos, Manoel Maria, Lauro Oliveira, Manoel
Correia de Andrade, Álvaro da Costa Lima,
Valdemar de Oliveira, Aluísio Araújo, Nilo Pereira, Armando Sales e
tantos outros que a pobre memória não me ajuda a recordar. Essa equipe de brilhantes
professores formou gerações de jovens que depois do ciclo secundário
empastelaram as universidades da época. Jornalistas, médicos, advogados,
engenheiros, químicos, físicos, biólogos, entre outras profissões das décadas
de quarenta e cincoenta, gente que se tornou formadora de opinião e ocupou as
diversas cadeiras do magistério dos colégios e universidades de então saiu dos
bancos do Colégio Estadual de Pernambuco e teve como mestre essas figuras
exponenciais das letras e da cultura pernambucana. Lembrar Evandro Griz,
ex-campeão brasileiro de lutas livres, chefe de disciplina do colégio, com seu
paletó de largas ampoletas que lhe avolumavam os ombros e que se posicionava
como “deista”, uma concepção teológica que apenas acredita na existência de
Deus. Lembrar também Macários, um bedel negro que se tornou aluno do colégio e
fez faculdade. Ainda é bom lembrar “seu” João, outro bedel negro, gordo e
sonolento, analfabeto, que chegou ali por QI de algum figuraço da política local. As bancas escolares com cadeiras
de assento e encosto em palhinha, as amplas
salas bem ventiladas, o museu de
história natural, o salão nobre a exibir retratos de autoridades e antigos
diretores do colégio em suas paredes, o pátio esquerdo por onde os alunos
fujões escalavam o portão de ferro e matavam as aulas seguintes. A cantina no
primeiro andar, onde um colega de nome Alexandre se espantou ao ver o
liquidificador então introduzido no comércio trabalhar, e exclama: “Já existe
vitamina assim!!!”.
Lembrar os cursos
extracurriculares implantados na gestão de Amaro Quintas. Jornalismo Prático,
Esperanto, Grego, oratória e outros mais. As conferências desse período proferidas por intelectuais de renome, como o
ex-arcebispo Antônio de Almeida Morais Junior, o poeta Mauro Mota e outros. Amaro Quintas, sempre com sua gravata
borboleta, se vestia elegantemente, era vaidoso na sua sapiência de historiador
que falava de história como se estivesse inventando uma. Lembrar a paciência de Jó de Manoel Maria, profundo
conhecedor da língua e da literatura portuguesa, delicado e modesto, ouvindo os alunos na leitura para a classe e
corrigindo os erros de pronúncia. A postura quase de pai de Hilton Sette,
chamando o aluno de “meu filho” e discorrendo sobre o universo como se
estivesse contando uma história qualquer; os métodos policialescos e
racistas de Álvaro da Costa Lima,
procurando a dedo aluno de cor para ir ao quadro negro traçar linhas
geométricas ensinadas em aulas que não
frequentou para poder humilhá-lo. O professor de desenho era delegado de
polícia e tinha ira de negro, sendo ele de cor morena, nada branco. Como não
lembrar o ranzinza Luiz Ribeiro, que preferia ser chamado de “doutor” a
professor? Enunciava uma regra, indicava um cálculo e mandava o aluno
desenvolvê-lo no quadro negro? O “pau” cantava na cadeira do catedrático de
matemática; um ano, reprovou todas as turmas, e acabou jogado no rio
Capibaribe, de onde foi salvo tiritando de frio por pescadores. O caso não teve
repercussão policial porque entre os alunos reprovados que jogaram Ribeiro no
rio estava um filho do professor. Não dá para esquecer o entusiasmo de Lauro
Oliveira, acentuando a pronúncia das palavras do latim e ensinando os casos da língua, e também fazendo palestras sobre literatura latina. Nem
a falta de didática de Armando Sales, complicado professor de matemática. As
aulas dinossáuricas de Eládio Ramos, das quais, aliás, o aluno sai sabendo
analisar textos delicados de Camões. Não me lembro dos nomes de outros professores,
como os de inglês, literatura, filosofia, física, química e trabalhos manuais. Mas
não poderia esquecer nomes exóticos de colegas, como Hiperbolon. Saudades do
Colégio Estadual, numa época de efervescências culturais quando graves problemas de saúde me forçaram a brecar por
muito tempo os estudos.