NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

quarta-feira, 31 de julho de 2013


             O COLÉGIO ESTADUAL
Hilton Sette, Amaro Quintas, Lucilo Varejão Filho, Eládio Ramos, Manoel Maria, Lauro Oliveira, Manoel Correia de Andrade, Álvaro da Costa Lima,  Valdemar de Oliveira, Aluísio Araújo, Nilo Pereira, Armando Sales e tantos outros que a pobre memória não me ajuda a recordar. Essa equipe de brilhantes professores formou gerações de jovens que depois do ciclo secundário empastelaram as universidades da época. Jornalistas, médicos, advogados, engenheiros, químicos, físicos, biólogos, entre outras profissões das décadas de quarenta e cincoenta, gente que se tornou formadora de opinião e ocupou as diversas cadeiras do magistério dos colégios e universidades de então saiu dos bancos do Colégio Estadual de Pernambuco e teve como mestre essas figuras exponenciais das letras e da cultura pernambucana. Lembrar Evandro Griz, ex-campeão brasileiro de lutas livres, chefe de disciplina do colégio, com seu paletó de largas ampoletas que lhe avolumavam os ombros e que se posicionava como “deista”, uma concepção teológica que apenas acredita na existência de Deus. Lembrar também Macários, um bedel negro que se tornou aluno do colégio e fez faculdade. Ainda é bom lembrar “seu” João, outro bedel negro, gordo e sonolento, analfabeto, que chegou ali por QI de algum figuraço  da política local. As bancas escolares com cadeiras de assento e encosto em palhinha, as amplas  salas  bem ventiladas, o museu de história natural, o salão nobre a exibir retratos de autoridades e antigos diretores do colégio em suas paredes, o pátio esquerdo por onde os alunos fujões escalavam o portão de ferro e matavam as aulas seguintes. A cantina no primeiro andar, onde um colega de nome Alexandre se espantou ao ver o liquidificador então introduzido no comércio trabalhar, e exclama: “Já existe vitamina assim!!!”.
Lembrar os cursos extracurriculares implantados na gestão de Amaro Quintas. Jornalismo Prático, Esperanto, Grego, oratória e outros mais. As conferências desse período  proferidas por intelectuais de renome, como o ex-arcebispo Antônio de Almeida Morais  Junior, o poeta Mauro Mota e outros.  Amaro Quintas, sempre com sua gravata borboleta, se vestia elegantemente, era vaidoso na sua sapiência de historiador que falava de história como se estivesse inventando uma. Lembrar  a paciência de Jó de Manoel Maria, profundo conhecedor da língua e da literatura portuguesa, delicado e modesto,  ouvindo os alunos na leitura para a classe e corrigindo os erros de pronúncia. A postura quase de pai de Hilton Sette, chamando o aluno de “meu filho” e discorrendo sobre o universo como se estivesse contando uma história qualquer; os métodos policialescos e racistas  de Álvaro da Costa Lima, procurando a dedo aluno de cor para ir ao quadro negro traçar linhas geométricas  ensinadas em aulas que não frequentou para poder humilhá-lo. O professor de desenho era delegado de polícia e tinha ira de negro, sendo ele de cor morena, nada branco. Como não lembrar o ranzinza Luiz Ribeiro, que preferia ser chamado de “doutor” a professor? Enunciava uma regra, indicava um cálculo e mandava o aluno desenvolvê-lo no quadro negro? O “pau” cantava na cadeira do catedrático de matemática; um ano, reprovou todas as turmas, e acabou jogado no rio Capibaribe, de onde foi salvo tiritando de frio por pescadores. O caso não teve repercussão policial porque entre os alunos reprovados que jogaram Ribeiro no rio estava um filho do professor. Não dá para esquecer o entusiasmo de Lauro Oliveira, acentuando a pronúncia das palavras do latim e ensinando  os casos da língua, e também  fazendo palestras sobre literatura latina. Nem a falta de didática de Armando Sales, complicado professor de matemática. As aulas dinossáuricas de Eládio Ramos, das quais, aliás, o aluno sai sabendo analisar textos delicados  de Camões.  Não me lembro dos nomes de outros professores, como os de inglês, literatura, filosofia, física, química e trabalhos manuais. Mas não poderia esquecer nomes exóticos de colegas, como Hiperbolon. Saudades do Colégio Estadual, numa época de efervescências culturais quando graves  problemas de saúde me forçaram a brecar por muito tempo os estudos.

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