NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

terça-feira, 16 de julho de 2013


           
PARTE NÃO CONTADA DA HISTÓRIA DO RECIFE  II
 O MATADOURO DA CABANGA / O MENINO QUASE TRAGADO PELO LAMAÇAL

Por volta de 1940, existia na Cabanga  um matadouro. Ficava no local onde hoje está o quartel do exército, ou um pouquinho mais à direita. Antes, existia ali uma favela chamada Gameleira, da qual falaremos em outro artigo. O matadouro, um bloco de três cômodos  em alvenaria coberto de telhas de zinco se situava perto da maré e abatia entre três e quatro bois às terças e sábado. O abate era feito a noitinha. As famílias da Av. Saturnino de Brito, algumas da Rua Imperial e umas poucas mais vindas do Pina ou de outros bairros da cidade adquiriam as melhores carnes, que eram conduzidas em longas sacolas de lona. Poucos carros chegavam ao local, até porque a cidade inteira  talvez possuísse uns trinta ou quarenta veículos de passeio espalhados pelos  diversos bairros. Não era permitido transportar carnes nos bondes. A segurança do matadouro mantinha estranhos e curiosos à distância, para proteger a área por onde circulava a classe média de cujo dinheiro dependia o matadouro. As partes mais procuradas da rês abatida eram separadas por mãos hábeis. As vendas da carne nobre  começavam ai pelas sete horas da noite e terminavam rapidamente, pois os empregados do matadouro já sabiam quais eram os compradores de sempre e preparavam suas porções costumeiras. Lá pelas nove horas, quando a clientela já se tinha ido e fechadas as entradas,  só uma porta ligeiramente levantada permitia a saída dos empregados mais qualificados; um homem soprava um búzio, anunciando que as carnes não comerciáveis podiam ser retiradas do balcão. A população da redondeza corria para o matadouro, passava por baixo da porta de aço e recolhia tudo que estava no balcão de cimento. Eram “carnes mortas”, vísceras e outras só consumidas pela pobreza, e hoje facilmente encontradas nos frízeres dos melhores supermercados do País. Só eram disponibilizados cinco minutos para fazer isso antes que a porta baixasse e fosse fechada a cadeado. Restavam as cabeças dos bois, que ninguém queria. Ainda pela madrugada, antes da lavagem do salão do matadouro, as cabeças eram jogadas na maré, para deleite dos siris. O sangue que escorria para a maré passava a impressão de um lugar imundo e fétido. Tubarões eram vistos nas imediações atraídos pelo cheiro do sangue. Urubus, às centenas, pousavam sobre as carcaças e extraiam as carnes daquelas cabeças desprezadas. Formou-se ali um enorme lamaçal que ameaçava a vida de pessoas incautas que acorriam ao local para  retirar os chifres das ossadas para trabalhos artesanais.                            
Até o fim da década de quarenta  era possível ver aquelas ossadas de cabeças de bois com seus enormes chifres ao baixar a maré nas imediações do quartel do exercito já em fase de construção. O que atraia a curiosidade de muita gente, ignorando o porquê daquele fato insidioso. Num episódio lamentável que foi presenciado por muita gente, inclusive o autor, ainda uma criança, um menino lá dos lados do Gasómetro, uma das primeiras favelas do Recife hoje extinta, tentou se aproximar daquelas cabeças que emergiam com a baixa da maré. Inocente, procurou andar sobre a lama que era como  um tapete  escuro fétido. A criança começou a afundar na lama a poucos metros da terra firme. A cada movimento que fazia para fugir ao lamaçal e voltar, mais afundava na lama. Seu corpo já estava enterrado até à cintura quando alguém teve a ideia de chamar a polícia; uma unidade da polícia chegou e os policiais logo perceberam o perigo em que estava o menino; através do rádio, chamaram  os bombeiros, aquartelados lá na Av. João de Barros; única unidade da Capital. Quando o carro dos bombeiros chegou a criança se debatia para escapar da morte  e seus braços ainda pairavam sobre a lama. Havia uma construção a certa quinhentos metros do local e o capitão que comandava aquela operação requisitou  de imediato algumas taboas da construção. Lançada a primeira taboa, um bombeira “rastejou” sobre a mesma  enquanto pegava a outra taboa que lhe era oferecida por trás. Quando o bombeiro alcançou a criança, seus braços já haviam desaparecido e só o pescoço estava de fora. Segurando a criança pelos cabelos, que eram densos – para que ela não foi definitivamente tragada pela lama, usou a outra mão para passar uma corda por debaixo das axilas do garoto; amarrou a corda e mandou puxar. Bombeiros e populares puxavam a corda, e o menina deslizava por sobre a superfície escura e fétida. Com a pele toda ralada e dificuldades  para respirar devido a grande quantidade de lama pobre aspirada e ingerida  o garoto foi colocado no carro da polícia, que o levou para o pronto socorro. Só depois de um mês o menino teve alta. E nunca mais inventou se aproximar dali.

Nenhum comentário:

Postar um comentário