PARTE NÃO CONTADA DA
HISTÓRIA DO RECIFE II
O MATADOURO DA CABANGA
/ O MENINO QUASE TRAGADO PELO LAMAÇAL
Por volta de 1940,
existia na Cabanga um matadouro. Ficava
no local onde hoje está o quartel do exército, ou um pouquinho mais à direita. Antes,
existia ali uma favela chamada Gameleira, da qual falaremos em outro artigo. O
matadouro, um bloco de três cômodos em alvenaria
coberto de telhas de zinco se situava perto da maré e abatia entre três e
quatro bois às terças e sábado. O abate era feito a noitinha. As famílias da
Av. Saturnino de Brito, algumas da Rua Imperial e umas poucas mais vindas do
Pina ou de outros bairros da cidade adquiriam as melhores carnes, que eram
conduzidas em longas sacolas de lona. Poucos carros chegavam ao local, até
porque a cidade inteira talvez possuísse
uns trinta ou quarenta veículos de passeio espalhados pelos diversos bairros. Não era permitido
transportar carnes nos bondes. A segurança do matadouro mantinha estranhos e
curiosos à distância, para proteger a área por onde circulava a classe média de
cujo dinheiro dependia o matadouro. As partes mais procuradas da rês abatida
eram separadas por mãos hábeis. As vendas da carne nobre começavam ai pelas sete horas da noite e
terminavam rapidamente, pois os empregados do matadouro já sabiam quais eram os
compradores de sempre e preparavam suas porções costumeiras. Lá pelas nove
horas, quando a clientela já se tinha ido e fechadas as entradas, só uma porta ligeiramente levantada permitia
a saída dos empregados mais qualificados; um homem soprava um búzio, anunciando
que as carnes não comerciáveis podiam ser retiradas do balcão. A população da
redondeza corria para o matadouro, passava por baixo da porta de aço e recolhia
tudo que estava no balcão de cimento. Eram “carnes mortas”, vísceras e outras
só consumidas pela pobreza, e hoje facilmente encontradas nos frízeres dos
melhores supermercados do País. Só eram disponibilizados cinco minutos para
fazer isso antes que a porta baixasse e fosse fechada a cadeado. Restavam as
cabeças dos bois, que ninguém queria. Ainda pela madrugada, antes da lavagem do
salão do matadouro, as cabeças eram jogadas na maré, para deleite dos siris. O
sangue que escorria para a maré passava a impressão de um lugar imundo e
fétido. Tubarões eram vistos nas imediações atraídos pelo cheiro do sangue.
Urubus, às centenas, pousavam sobre as carcaças e extraiam as carnes daquelas
cabeças desprezadas. Formou-se ali um enorme lamaçal que ameaçava a vida de
pessoas incautas que acorriam ao local para retirar os chifres das ossadas para trabalhos
artesanais.
Até o fim da década de
quarenta era possível ver aquelas
ossadas de cabeças de bois com seus enormes chifres ao baixar a maré nas
imediações do quartel do exercito já em fase de construção. O que atraia a
curiosidade de muita gente, ignorando o porquê daquele fato insidioso. Num
episódio lamentável que foi presenciado por muita gente, inclusive o autor,
ainda uma criança, um menino lá dos lados do Gasómetro, uma das primeiras
favelas do Recife hoje extinta, tentou se aproximar daquelas cabeças que
emergiam com a baixa da maré. Inocente, procurou andar sobre a lama que era
como um tapete escuro fétido. A criança começou a afundar na
lama a poucos metros da terra firme. A cada movimento que fazia para fugir ao
lamaçal e voltar, mais afundava na lama. Seu corpo já estava enterrado até à
cintura quando alguém teve a ideia de chamar a polícia; uma unidade da polícia
chegou e os policiais logo perceberam o perigo em que estava o menino; através
do rádio, chamaram os bombeiros,
aquartelados lá na Av. João de Barros; única unidade da Capital. Quando o carro
dos bombeiros chegou a criança se debatia para escapar da morte e seus braços ainda pairavam sobre a lama.
Havia uma construção a certa quinhentos metros do local e o capitão que
comandava aquela operação requisitou de
imediato algumas taboas da construção. Lançada a primeira taboa, um bombeira
“rastejou” sobre a mesma enquanto pegava
a outra taboa que lhe era oferecida por trás. Quando o bombeiro alcançou a
criança, seus braços já haviam desaparecido e só o pescoço estava de fora.
Segurando a criança pelos cabelos, que eram densos – para que ela não foi
definitivamente tragada pela lama, usou a outra mão para passar uma corda por
debaixo das axilas do garoto; amarrou a corda e mandou puxar. Bombeiros e
populares puxavam a corda, e o menina deslizava por sobre a superfície escura e
fétida. Com a pele toda ralada e dificuldades para respirar devido a grande quantidade de
lama pobre aspirada e ingerida o garoto
foi colocado no carro da polícia, que o levou para o pronto socorro. Só depois
de um mês o menino teve alta. E nunca mais inventou se aproximar dali.
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