UMA PARTE DA HISTÓRIA NÃO CONTADA DO
RECIFE
N0 início de década de
quarenta, o Recife tinha uma configuração geográfica diferente da que apresenta hoje. Não tinha
aeroporto, avenidas largas como as que agora fazem o trânsito fluir, não possuía edifícios (o
maior, chamado “arranha céu”, era aquele que fica na pracinha bem em frente a
antiga sede do Diário de Pernambuco, era servido apenas pelos bondes e pela
linha férrea com seus ramais das linhas centro, sul e norte. Para acessar o
centro da cidade, partindo do sul, a única via existente era a Rua Imperial. O
bairro de São José era constituído de quatro núcleos habitacionais, a saber: a
própria Rua Imperial, a Gameleira, a Avenida Saturnino de Brito e a Rua de
Jangada, esta composta da vila dos pescadores da Colônia Z1 e da Rua das
Calçadas Altas, além da vila dos oficiais do exército que serviam no quartel
bem ali na esquina de Ibraim Nejaim depois transferido para a Mangueira. O
resto era mangue, em cujas bordas norte
casebres miseráveis serviam de abrigo para os párias do bairro. Ah, nunca ouviu falar da
Gameleira? Essa é outra parte da história não contada do Recife que abordaremos em outra ocasião. Em
tempo: no local onde existiu a Gameleira havia um matadouro.
Da Rua de Jangada até
as bordas das Cinco Pontas, predominava o manguezal. O resto eram áreas alagadas. Para expandir a cidade, o governo
providenciou o aterro do manguezal.
Milhares de metros cúbicos de areia foram retirados por dragagem da bacia do Pina e jogado sobre a área
pantanosa. Em alguns anos de trabalho, estava formado o areal que ficou
conhecido como o Chupa. Nenhuma casa,
nenhum armazém, construção alguma durante décadas. Só o areal. Não tardou a
haver exploração econômica do cais da Cabanga (Cabanga é palavra feminina).
Instalou-se ali um porto auxiliar ao do Recife. No princípio, a mercadoria era
lenha, a lenha que passou a alimentar os fornos das padarias da cidade, que
antes utilizavam carvão mineral. A madeira em lasca ou em pedaços quase
simétricos moldados por machadeiros era trazida em toros por barcaças à vela
vindas do litoral sul. Outros produtos foram sendo aos poucos introduzidos na
cidade através do Porto da Cabanga. Coco seco, sal, farinha de mandioca, tudo
em sacas de 60 quilos, aves (galinhas, patos, perus) e frutas de época
distribuídas em balaios carregados no lombo de trabalhadores. A prefeitura não
permitia a comercialização de alimentos naquele cais. Por isso, esses produtos
eram vendidos à noite ou nos finais de semana quando não havia fiscalização. Ou
em pleno dia, dependendo do fiscal que estivesse cobrindo a área. A propina
corria solta. Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, as tropas
norte-americanas foram se aquartelando no Recife. A circulação entre o centro e
a zona sul era prejudicada pela ausência de estradas. Logo apareceram máquinas
que iam abrindo sulcos na areia e enchendo esses sulcos com barro; centenas de
caminhões de barro. Em pouco tempo os veículos militares americanos passaram a
dominar aquele espaço. E com a presença do exército norte-americano, veio o fim
do porto auxiliar. Um gerador instalado no porto foi confiscado pelos norte-americanos;
a cidade passou a viver às escuras, a noite era um breu. E lanchas da marinha
interceptavam as barcaças, impedindo sua aproximação da Cabanga. Fim do porto.
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