NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

domingo, 22 de agosto de 2010

G A N D O L A

O nome soa estranho. Mas era assim mesmo que ele era conhecido. Nunca ouvi falar seu verdadeiro nome. A cara inchada de aguardente dos últimos anos de farra quase sem limites era a marca registrada do rapaz nos seus últimos tempos. Como o próprio apelido faz supor, Gandola era mesmo da gandaia. E a maior alegria de sua vida era quando chegava o carnaval. Rapaz trabalhador, empregado de uma mercearia, onde cortava charque, Gandola era apaixonado por Noemi. Moça de família estruturada, decente e por isso mesmo referência no bairro modesto onde morava. Oriunda do interior da Paraíba, a família de Noemi concentrava em sua casa – e na igreja local – as atividades marianas e demais manifestações católicas do lugar. A família da moça montara uma casa boa, bem mobiliada e de boa localização. Já Gandola era de origem bastante humilde. Morava numa rua sem qualquer estrutura social, casa modesta e família de hábitos não bem conhecidos. A diferença de status e de comportamento social entre os dois grupos familiares – que não se conheciam – fez a família de Noemi se opor visceralmente ao possível namoro dela com o rapaz estabanado que a cercava, se insinuando como pretendente.

A firma posição da família complicou ainda mais a já nada equilibrada vida de Gandola. Ele ainda tentou uma abordagem mais direta, mas sentiu que o ambiente na casa de Noemi lhe era muito hostil. Inexperiente, a moça oscilava entre o sim e o não. Com a severa educação dessa época, os pais da moça se tornaram mais vigilantes a respeito de possíveis encontros da filha com o comerciário. Criaram barreiras de contenção emocional que não permitiam que os dois se vissem como um possível casal. Mas, como todo apaixonado, Gandola não desistiu. Mudou de tática, logo detectada pela família severa. Continuava, contudo, passando em frente à residência da amada cuja família tinha o hábito de se reunir entre a tarde e a noite no terraço da casa. Eles não tinham nenhuma chance de um encontro. A cabeça da moça fora trabalhada para o passo errado que ela daria caso viesse a casar com Gandola. Inteligente, simpática e doce, a moça deve ter pesado os pormenores sociais que lhe eram cuidadosamente colocados pela palavra gentil, mas firme, de sua mãe. Chegou o carnaval, e Gandola aproveitou para se aproximar mais de sua querida. Ela, porém, não era vista no terraço. Com a cara pintada, vestido de saia e camisa feita com remendos coloridos, Gandola montou uma turma de amigos, carnavalescos como ele, e desfilava com os amigos tocando bumbo, triângulo, recorreco e todo tipo de apetrechos dos quais arrancavam algum tipo de som. Ainda que fizessem muita zoada. E zoada era fundamental para a forma de se expressar do grupo. Começavam na sexta-feira à noite, e só terminavam na quarta-feira de cinzas, com o bacalhau do Gandola. Que já era uma tradição ali no arrabalde. A farra se iniciava cedo. Ou melhor: não parava, era noite e dia, aquela rapaziada cantando, abraçados, circulando por todas as ruas, sem deixar de incluir a frente da casa de Noemi como roteiro das suas brincadeiras quase intermináveis. Quase não paravam; se é que paravam.. Eram intermináveis mesmo. Pelo menos, enquanto durasse o carnaval. Dormiam no meio da rua, se é que dormiam em algum momento.

Na quinta-feira, quando ainda de ressaca se apresentou para trabalhar, Gandola foi despedido do emprego. Logo já estava trabalhando em outro estabelecimento. Com a insistência do moço em passar sempre que podia na frente da casa da garota, ele acabou surpreendido com uma informação, provavelmente fornecida por algum visinho dela. A moça tinha sido levada para o interior de sua família. A tristeza tomou conta do rapaz. Sua frustração emotiva teve repercussão desastrosa. E trágica. De farrista, tornou-se ébrio. Passava pouco tempo num emprego, e acabou não encontrando mais quem lhe desse trabalho. Passou a não viver propriamente; era levado pela vida. No novo período de carnaval, o grupo de boêmios amigos do moço aumentou. Eles tentavam restabelecer a auto-estima do amigo abalado por tanto insucesso pessoal e emocional. Desempregado, cara inchada pela aguardente, Gandola não baixava o tom durante o carnaval. Pelo menos, nessa época. Emagrecido e sem aquela energia de antes, dançava pelas ruas do bairro no meio de sua turma agora de vestes femininas completas. Os outros amigos ainda saiam e assistiam uma parte do carnaval no centro do Recife, ou na parte central do bairro. Gandola, não. Ele circulava dia e noite, até pelas madrugadas desertas do arrabalde, às vezes solitário. Mas cantando e dançando. Marcando seu espaço. Passado o carnaval, ele teve uma grande alegria e uma decepção ainda maior. Noemi estava de volta à casa dos pais. Mas, já comprometida, casaria dentro de pouco tempo. Os velhos cederam ao assédio que o filho do posseiro de muitas terras devolutas daquelas bandas ensaiava em torno de Noemi. Arranjaram um casamento para a menina. Um namoro, logo seguido de um noivado selaram o compromisso. Noemi agora circulava em companhia do noivo, e não raro chegava de carro em companhia dele e de uma irmã dela. A situação estava definida. Inconformado, Gandola vingou-se na bebida. Bebia cada vez mais.

Naquele que seria o último carnaval de Gandola, os seus amigos compraram um bacalhau inteiro, espetaram-no numa vara e o transformaram num estandarte a identificar o grupo já conhecido pelo nome do peixe. Aquele bacalhau, depois de vários dias tomando poeira, sol e sereno, foi consumido pela turma na quarta-feira, depois de assado num fogo improvisado sobre pedras e tijolos no pátio da igreja. Acompanhado de muita cerveja e muita aguardente. O irrequieto grupo de rapazes não parava de cantar e dançar ao som dos instrumentos que eles mesmos tocavam. Já no fim da tarde, bêbados de cair e formando uma fila em que uns se seguravam nos outros, o grupo chega à rua onde morava Noemi, agora já casada. A alguma distância da casa dela, param para a despedida. Ninguém ali se agüentava mais de pé. E cantavam a música da despedida do carnaval, já encerrado no dia anterior. Comandados por Gandola, fazendo coreografias, que só eram possíveis porque uns seguravam os outros, cantavam: é de fazer chorar / quando o dia amanhece / e se vê o frevo acabar / oh quarta-feira ingrata / chega tão depressa / só pra contrariar (...). E Gandola chorava copiosamente. Não se sabe se chorava a perda da mulher que tanto amava, ou se antevia que aquele fosse seu último carnaval. Ou se chorava as duas coisas. Gandola não vira o carnaval seguinte. De faces inchadas, sem se alimentar e bebendo sempre, acabou tendo problemas de saúde mais graves. Internado em caráter de emergência, morreu alguns dias depois na emergência de um hospital público. A história de Gandola é a história de milhares de criaturas perturbadas pela paixão doentia. Que não conseguem racionalizar suas emoções. Se é que se pode pensar que alguma vez a emoção de pessoas loucamente apaixonadas sucumbiu à razão. Gandola não usava nenhum processo racionalizado. Ele era só emoção!

                                                            (Do livro Tipos exóticos de minha adolescência, 1978)















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