NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

                                             A FERRUGEM DA ALMA


                                                    Emílio J. Moura



O mundo pós-moderno é um ambiente onde as pessoas vivem em clima de plena liberdade. A mídia é a principal guardiã dessa formidável conquista do ser humano. Os parlamentos do mundo inteiro legislam continuamente no sentido de aperfeiçoar os postulados da liberdade. E a Justiça, provocada pelo interessado prejudicado em seu direito de ir e vir ou exercer suas prerrogativas legais, restaura a liberdade do individuo momentaneamente impedido de exercê-las. Todavia, essa concepção de direito individual – como toda concepção – só existe formalmente, em teoria. A verdade é que teses sobre liberdade plena só beneficiam uma pequena parcela da população. Aquela parcela mais bem contemplada por boa educação, formação universitária ou qualificação em áreas de alta tecnologia ou pessoas pertencentes a grupos ligados aos centros de tomada de decisão. Vale dizer: é privilégio de poucos.

Não é apenas o Brasil. No mundo inteiro as elites se beneficiam da legislação vigente em cada país. Cinicamente, essas elites pregam as maravilhas do primado da liberdade. E fazem uso dele como se fosse uma arma defensiva – e exclusiva – dos grupos de mando e poder. Esquecem que milhares de pessoas circunstancialmente flagradas na prática de delitos têm um peso de culpa imensamente menor do que aquela atinente aos seus próprios ilícitos. Os mais fracos são punidos com penas mais severas, embora seus delitos sejam comuns, de pequeno prejuízo a terceiros, enquanto os delitos das elites são extremamente graves, mormente aqueles praticados por agentes públicos que manipulam em seu favor as verbas destinadas a assistir aos mais necessitados.

As elites são tão cínicas que catequizam pessoas incautas para servirem de testa de ferro – quando não de bode expiatório – para acobertarem seus crimes. E a corrupção que avassala a sociedade vai se enraizando entre os seus vários segmentos de tal forma que já atingiu o estágio de latência. Como um vírus que atua sorrateiramente, a corrupção sob todas as formas conhecidas ou imaginadas vai dominando a sociedade humana como uma ferrugem que começou a comer o miolo do sistema social e agora já se pronuncia abertamente corroendo a alma das pessoas.

Mas, como vivemos sob a égide das aparências, tudo se acomoda, a lei acoberta os mais poderosos, que podem reivindicar o estatuto da liberdade. E como tudo é aparência, só os menos agasalhados sob as asas da rede de proteção jurídico-social, ficam sem escola de qualidade para seus filhos, sem saúde minimamente decente e vulneráveis às espertezas das elites.
 17.07.2009

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