NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

sábado, 14 de agosto de 2010

A MULHER QUE MORREU DE PAIXÃO

A MULHER QUE MORREU DE PAIXÃO


Emílio J. Moura

A casa era modesta, mas aconchegante. As pessoas que ali moravam eram simples, delicadas e de boa índole. O chefe da família era um senhor de meia idade. Trabalhava como torneiro mecânico numa oficina de consertos de carros. A mulher dele era simplesmente dona de casa. O casal tinha três filhos: Matilde, Marta e Miguel. Matilde trabalhava como balconista numa pequena loja de subúrbio; Marta vendia doces fornecidos por uma doceira da rua. E Miguel era marceneiro e trabalhava numa fábrica de móveis lá em Afogados. Família unida, passava os domingos e feriados reunida na intimidade do lar.

Perto da casa dessa família de hábitos simples morava uma outra, de costumes nem tão simples assim. A dona da casa, dona Rosa, trabalhava na antiga fábrica de cigarros Souza Cruz. A mulher era separada. Mas o marido, um mestre de obras, visitava a casa todo fim de semana. Chegava aos sábados à noite e só ia embora na segunda-feira de manhã. Direto para o trabalho. O ex-casal tinha hábitos estranhos que provocavam tititi na vizinhança, mas isso era um problema deles. Os filhos também eram três. Um deles, José Ramos, era adulto e fabricava peças de madeira num torno de oficina bem perto de sua residência. Os outros dois, menores e estudantes, eram Carmem e Cláudio. Os dois irmãos eram briguentos. Quando não arranjavam com quem brigar na rua, brigavam um contra o outro.. As queixas contra eles se repetiam com freqüência na porta da casa de dona Rosa.

Até aqui, nada de tão anormal. Exceto, quando se tratava de Matilde, que era loucamente apaixonada por Miguel. Só que o marceneiro não dava bolas para a comerciária. Ao contrario, ele nutria uma paixão contida pela garota do escritório da fábrica de móveis onde trabalhava. Que por sua vez arriava as asas pelo filho do patrão que era casado. Se é apropriado chamar isso de triângulo amoroso, o autor não sabe. Sabe-se, sim, que a expressão seria válida se os personagens desse drama informal tivessem envolvimento direto e consciente entre si. Não era o que acontecia. Matilde se insinuava para Miguel, mandando-lhe presentes que comprava na loja onde trabalhava. Em certos momentos era ostensiva em suas intenções. O rapaz nem aí. Foi quando a balconista começou a usar Zé Ramos para levar recados e depois bilhetes amorosos ao Miguel. O que não deu muito certo. O rapaz, já cheio com todo aquele assédio, começou a pilheriar Zé Ramos e não tardou a dar um fora em Matilde.

Apaixonada por quem a desprezava, Matilde, que era uma moça simples e recatada, passou a apresentar comportamento estranho. Aprendeu a fumar, o que fazia escondido dos pais. Logo, logo começou a beber, também escondido da família. E como uma desgraça puxa outra, não tardou a freqüentar uma gafieira, onde sob os efeitos do álcool e da nicotina, iniciou-se como dançarina. A essa altura, já afastada voluntariamente da família, estava morando com uma colega de trabalho com quem dividia o aluguel de um quarto. Paixão cruel, patológica. Apesar de levar uma vida de orgias, negara-se sistematicamente a sair com qualquer outro rapaz. Na sua cabeça só existia um homem: Miguel, agora noivo e de casório marcado. Talvez tenha sido a única mulher que deixou a mansidão do meio familiar, se envenenou com fumo e bebida, dançou em cabarés, mas não se prostituiu. Já sem condições de trabalhar e doente, voltou para a casa dos pais. Apesar do apoio familiar e do tratamento médico, não conseguia se libertar de sua paixão. Fraca e desiludida, calcinada pela vida, Matilde amanheceu morta em seu quarto externo nos fundos da casa, e em meio a muitas garrafas de vinho vazias, justamente na manhã seguinte ao dia do casamento de Miguel.

10.12.2007



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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