A MADAME E A PROSTITUTA
Emílio J. Moura
Verão de 1987, Sol já se escondendo no acinzentado entardecer de São Paulo. No MASP, um quadro me chamava a atenção. Era um di Cavalcanti. Olhava, olhava e não entendia lá muito bem o que o pintor queria passar. Próxima a mim, elegante senhora esquadrinhava a obra do festejado artista brasileiro. Parece que a bela senhora percebeu minha dificuldade de neófito em arte. Aproximou-se, e sem mais comentários nem apresentação, foi discorrendo sobre a estrutura estética do quadro. Falou do alto nível da perspectiva e da simetria entre os vários elementos constitutivos da tela. Mostrou-me a beleza entre a profusão e a combinação de cores, e delicado contraste entre as sombras pouco carregadas e a luz diáfana. Confesso que a certa altura da dissertação me interessava mais a voz suave e culta da minha cicerone ocasional do que propriamente o quadro em minha frente. Não fosse minha timidez teria me virado para ela e a admirado em sua silhueta deslizando dentro de um longo folgado de tecido fino. Esvoaçava o vestido, embora o ambiente fechado, e isso emprestava àquela senhora um charme distinto naquele espaço onde não faltavam mulheres produzidas e belas.
As cores delicadas do vestido que eu observara apenas de soslaio combinavam com a cútis morena da bela mulher. Sapatos de saltos altos; uma pulseira de pedras brilhando na extremidade do seu antebraço e um rosto levemente maquiado que só pude observar na despedida fechava o perfil da mulher cujo perfume tinha um toque delicado.
Terminada a exposição – não a do MASP, a da minha companhia inesperada, dirigimo-nos para a porta de saída. O interesse da mulher por mim era tanto que me fez ficar confuso. Não tinha certeza se devia me despedir dela e ir embora ou se continuava a ouví-la falar. E como falava! Num curto espaço de tempo me municiou de informações sobre arte e cultura em geral. Falou dos vários pontos onde se respirava arte na cidade de São Paulo, e acabou me convidando para visitar alguns deles. “Ainda é muito cedo, e teremos oportunidade de ver muita coisa bonita e ouvir música tranquilizante”, disse-me ela.
Hospedado em bairro não muito distante, mas temeroso por está numa cidade enorme como aquela, com sua resenha de violência e um clima nada previsível, declinei do convite. Ao seu convite para jantarmos juntos, disse-lhe já haver jantado, pois costumava fazê-lo à tardinha, antes de ir para a casa onde estava hospedado em Vila Madalena. Com seu charme e sua perspicácia, logo entrou no meu mundo mais reservado. Ao enunciar “sua graça”, falei que conhecia uma jornalista com esse nome no Recife. Ao que ela respondeu tratar-se de alguém “lá do outro lado da família, uns pobretões”. Sem querer, disse-lhe que voltaria para casa no dia seguinte. “Mas que coincidência!”, disse ela. E arrematou “Também estou voltando para minha terra querida amanhã”. Depois de me olhar sorridente, indagou-me: “Não me diga que o seu vôo é o... “, e eu, inocentemente, informei o número do meu vôo.
Helena Beltrão estaria em São Paulo em companhia de um amigo paulistano tratando da importação de produtos para a empresa da família. Estava hospedada nos Jardins. Freqüentava diariamente os points da cidade, preferindo a noite. Voltava para cuidar dos negócios da família, que sem ela ficavam acéfalos. Caminhávamos para o largo, pois ela imaginava que eu possuísse carro para uma carona, ou, quem sabe lá o que ia na cabeça dela. Quando me viu me dirigindo para o ponto de parada do ônibus, desconversou. Disse que ainda tinha um compromisso àquela noite. Estendeu-me a mão para um cumprimento final. Foi embora.
Às oito horas da manhã seguinte lá estava ela no aeroporto. A proximidade de minha família residente em São Paulo a manteve distante de mim. Até a decolagem do avião. Parecia ser um acordo; fingindo que não nos conhecíamos. Embarquei sozinho, e quando o avião atingiu altura e o comandante fez aquela saudação usual, ela arranjou um jeito de sentar numa cadeira junto a mim. Conversamos durante toda a viagem com escalas no Rio, Salvador e Maceió. Ela, entusiasmada com a possibilidade de nos encontrarmos em programas culturais no Recife. Eu, nem tanto. Ao desembarque, minha família me esperava no aeroporto e ela vendo minha mulher furar a barreira de segurança e já na esteira de bagagem, braço esquerdo me atravessando a cintura, percebeu que não tinha espaço junto a mim. Desapareceu sem sequer um aceno.
Meses depois, viajando de carro em companhia de um amigo no começo da noite, passamos por aquela mulher que mais parecia uma cobra deslizando dentro de vestido finamente acabado. Curioso, pedi ao amigo para inverter o itinerário, e ele me atendeu, entrando num retorno logo adiante e não tardou a estarmos trafegando bem perto da mulher. Dentro do carro, caminhamos um bom tempo a pouca distância daquela criatura. Ela distribuía beijos para motoristas de automóveis que buzinavam ao passar. Mais adiante, parou, estendeu os braços na direção de alguém lá do outro lado da avenida. Abraçou e beijou profusamente um homem que atravessara a rua para o encontro com ela. Despediram-se, e ela quase não lhe larga as mãos. Depois de várias cenas semelhantes, encontrou finalmente um jovem com quem se abraçou e saíram aos beijos. Pegaram um táxi e desapareceram. “Ta satisfeito?”, perguntou-me o amigo. Percebi alguma coisa de sarcasmo nessa sua pergunta. “Você a conhece?, indaguei. “Claro! Quem por aqui não conhece aquela puara?” E o amigo acabou me revelando a real identidade da camaleônica Helena Beltrão. Seu verdadeiro nome era Lídia Betina, mais conhecida por Tina. Mais alisada do que corre-mão de ônibus de subúrbio na hora de pico. Uma prostituta das ruas da Boa Vista.
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